Em vésperas de uma das semanas mais importantes enquanto jovem estudante- vulgo, Queima das Fitas- urge uma nova reflexão do papel dos jovens, o que significa verdadeiramente ser Jovem na sociedade civil. No entanto, apesar de a Queima das Fitas ser o mote da reflexão a que dou início, proponho-me a duas coisas: a afastar uma preguiçosa, apesar de frequente, caracterização monotemática dos jovens como festeiros e inconsequentes; e examinar a premissa que tem trazido agora uma nova vaga de atores jovens na política. No fundo, tento trazer uma perspetiva que, apesar de óbvia, acaba por ser revolucionária: que talvez os jovens, como os adultos, contêm multitudes e são merecedores de uma representação igualmente plural.

Na primeira abordagem, vemos um discurso cansado e refutado de que os jovens não são dignos de votos de confiança, por serem irremediavelmente jovens, e tudo o que isso acarreta- idealistas, românticos, inconsequentes. Enfim, tomados por devaneios revolucionários, somos uma geração historicamente vista de forma carinhosa por ainda termos a chama da vida (ainda não apagada pelas amarguras das derrotas e cansaço da vida real), mas, ou talvez por isso mesmo, não verdadeiramente considerada ou sequer levada a sério nos lugares de decisão. E foi pelo ultrapassar desta visão que se vê agora uma segunda abordagem. Há uma proliferação de figuras jovens- no comentário político, na liderança de associações e na política pura e dura. Numa sociedade global, não há agora possível desculpa para não haver representatividade jovem. E cá estão eles- os jovens. Mas parece exatamente esse o problema: não havendo agora uma possível desculpa, o lugar de fala é nos dado num tom quase jocoso: “Aqui está um painel de debate jovem, com jovens tal e qual como vocês. Estão contentes agora?”. E é nestes termos que, ultrapassada uma visão infundada de uma inteira geração, igualmente nos tomam como ignorantes e ingénuos, e que nos impingem, acriticamente, representação jovem. E aqui insiro a minha premissa essencial: não é por ser jovem que me representa.

Deste ponto de partida, duas questões importantes se levantam sobre a participação jovem na sociedade civil: o que significa ser jovem; e quais são as suas reivindicações.

Ser jovem. Ser jovem, na política portuguesa, parece ser uma representação cronológica: dos 18 aos 30 anos. Mas, permitam-me dizer, ser jovem não é simplesmente ter uma idade compreendida entre estes números. Ser jovem sente-se. Um jovem é, irremediavelmente, intenso e revolucionário nas suas intenções. Revolucionário no sentido mais profundo da palavra: ainda acredita no conceito romântico do “bem comum”. Numa nova geração, novos problemas se avizinham; antigas fórmulas já não funcionam, e já não nos representam. Então a representação jovem falha o ponto essencial da representação jovem: ser jovem. A representação jovem em Portugal esmagadoramente repete a fórmula de uma geração passada, imitam a postura morna dos já bem estabelecidos nos lugares de poder, e utilizam a sua data de nascimento para preencher uma quota de diversidade jovem. Se o discurso menciona, uma e outra vez, que é jovem e se dirige a jovens, então tenho uma notícia para dar: não é para os jovens. É para os adultos na sala que precisam de alguém novo (cronologicamente) que valide a sua forma de fazer política.

As reivindicações jovens. E igualmente vemos isso na institucionalização dos movimentos estudantis. Acredito profundamente que as ambições pessoais não precisam de ofuscar, e muitas vezes ajudam, na defesa de convicções pessoais e na defesa do bem comum. Mas é aí que reside a questão. Num mundo pós-capitalista, falta a parte das convicções num mundo competitivo e de ambiciosos. Com estruturas profundamente enraizadas na sociedade portuguesa, florescem ambições institucionais e as convicções ficam de fora (ou nem existiam para começar). Todos somos pelos direitos dos estudantes, mas no fundo não sabemos muito bem quais. Queremos mais representação jovem, mas sem convicções que a movam, é infrutífera. E nota-se. Perdemo-nos nas questões secundárias, sem endereçar a questão de fundo: não nos tratem amorfamente como jovens, quando não há sequer uma luta jovem.

São problemas gritantes, mas, tal como todos os restantes problemas que assolam a minha geração, são tratados de forma grosseira. Tratam-nos de forma infantil, e incomoda-me. É quase ofensivo como nos dão representatividade acrítica, como nos tratam monotematicamente por sermos jovens. E, portanto, enquanto jovem, digo: não é por ser jovem que me representa. Porque é que parece tão revolucionário dizer isto? Não nos tomem por ignorantes; nós percebemos perfeitamente a representatividade jovem que nos querem impor. E, honestamente, merecemos mais.

Texto originalmente escrito para o Jornal NOVO.


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Isabel Lobo