A famosa e famigerada lista que resgata caras da sociedade civil está de volta para, por um lado, atormentar a geração Z com os nomes que confirmam o nosso falhanço geracional, e, por outro, deliciar a geração boomer que adora histórias de individualismo e superação.
Quando olho para listas deste género, há três coisas que me interessam mais do que tudo: o tipo de figura pública que se privilegia, os sentimentos que provoca, e a sua raison d’être.
Dividida a Class of 2025 por inúmeras categorias, suscitaram-me desta vez particular curiosidade alguns nomes que circulam de boca em boca na minha esfera de influência. A análise que se segue irá excluir por completo alguns dos nomes mais famosos da lista, porque acoplados às categorias associadas ao fenómeno de verdadeiro mediatismo – vulgo, Social Media e Desporto. Talvez reinforçando expectativas sociais que pessoas verdadeiramente famosas como Magui Corceiro ou Rúben Dias atingem um tal nível de abstração de que já não estão sujeitos a juízos tão cerrados sobre a coerência entre o seu discurso e o seu comportamento – não digo que não – mas ainda assim me apraz mais empurrar os holofotes para as pessoas que figuram a lista de 2025 de forma mais sub-reptícia. Não sendo figuras verdadeiramente conhecidas do público em geral, mas tão somente da bolha, ainda assim são as que com maior probabilidade figurarão, num futuro não assim tão longe, em governos e lugares de decisão pública que influenciarão a nossa vida coletiva. A mim, como gosto de ser party pooper, apetece-me escrutiná-las antes de a sua carreira ter realmente começado.
Uma lista de pessoas importantes da sociedade civil é precisamente a benfeitoria que o capitalismo requer para manter a sua pujança: ao priorizar os feitos do indivíduo, apaga-se a importância histórica da força coletiva – a única que consegue verdadeiramente mudar alguma coisa. O que é que a sociedade retira, exatamente, de benéfico dos louros atribuídos por uma Forbes 30 Under 30? Nada. Acho que é esse o ponto. E no, entanto, isto não é uma lista de figuras socialmente influentes? O que é que, a este ponto, significa legado ou influência, se vem à custa da disrupção que é, na teoria, necessária para ser influente? “Do words even have meaning anymore?”
Não consigo deixar de pensar que deve haver pessoas dentro das mencionadas que percebem o que estou a falar, pelo menos as que habitam os meios politicamente conscientes. Só consigo pensar na categoria da Sustentabilidade. Isto são pessoas que todos os dias trabalham numa área politicamente divisiva, “o próprio conceito de emergência climática faz parte de uma agenda”. Se o próprio existência do ativismo desta gente é questionado, há quase um pré-requisito de se ser politicamente inquisitivo. Sendo os grandes céticos da emergência climática governos de direita, perdoem-me se pressuponho que as figuras que carregam os bastiões do clima são de esquerda e que, antes de irem dormir, perdem uns minutos de sono a pensar no paradoxo moral em que habitam. À primeira vista pouco deve ter a ver a preocupação climática com a questão do mérito; mas pensando a questão de uma forma um pouco mais lata, ambos são consequências do capitalismo, e fazer da sua luta de vida o clima, um tema inerentemente anticapitalista, parece logo um pouco hipócrita o cherrypicking feito na crítica anticapitalista. Ou seja, os efeitos nefastos do mito da meritocracia já não interessam quando se trata de colher para si próprio os louros da luta contra outro sintoma do capitalismo? Ou quando se trata de ceder à ânsia que o status quo tem por histórias inspiradoras (outra coisa que a luta climática odeia, porque foi literalmente o status quo que nos trouxe ao estado a que chegamos), lá vamos ordenhar até à exaustão os nossos pedaços de história que mais puxam para a lágrima.
Poderia ainda falar da alumni Maria Francisca Gama na categoria Artes, que já critiquei na minha infame opinião sobre um dos seus livros, e que, em entrevista à SIC Notícias1, deu-nos a conhecer que para investigar sobre violações para o seu livro, navegou em sites de abusadores (porque lhe dava jeito para o melodramatismo), mas nunca lhe passou pela cabeça fazer uma investigação mais a fundo para tentar uma accurate depiction da forma como as vitimas reagem a uma situação traumática. Ou ainda Mafalda Rebordão, na categoria Tecnologia e Inovação em entrevista na Geração 90 com Júlia Palha2, a repetir o já estafado, e honestamente estúpido, discurso de que as mulheres devem passar a fazer parte dos “boys clubs” do poder e liderança. Eu quero explorar as pessoas abaixo de mim na cadeia capitalista! Por mulheres exploradoras em vez de homens!
Ainda assim, não consigo dizer que não compreendo o dilema moral em que algumas destas pessoas devem viver, de se vergar ao sistema capitalista ou ao status quo por uma questão de ego, de dar mais visibilidade à sua luta/paixão, ou ambos. Vergar-se significa mais pragmatismo na luta; mas também, creio eu, dilui o seu impacto real na cultura. Não nos convencem assim tanto; também a pessoa comum se vergaria. Só poucas na história da humanidade não o fizeram; mas, se me permitem o aparte, talvez sejam essas as únicas que interessem, em vez de darmos relevância a deuses falsos pelo caminho.
Ou ainda poderia eu inquirir-me a mim própria: fazendo eu um ponto de vista de dialética política, o que diz sobre mim própria pôr em xeque pessoas com que, à partida, tenho tudo em comum nas lutas progressistas? Quero continuar a tradição da esquerda autofágica em que nos atacamos todos uns aos outros? O que beneficia mais as nossas lutas em comum: o meu flex argumentativo, ou uma postura pragmática que provavelmente trará mais frutos aos problemas sociais que tentamos resolver? Quero, num ciclo político fascizante, tornar-me involuntariamente a idiota útil que põe em xeque o pouco progressismo que é bem-sucedido? Talvez queira. Acho que o exemplo do Zohran Mamdani na corrida para Presidente da Câmara de NYC me deu esperança renovada de que o radicalismo pragmático não deve ser confundido com o bare minimum; acho que é precisamente essa postura conciliadora com que nos tem afundado. O pragmatismo pode ser radical e não dar as mãos à linguagem viciosa capitalista. Talvez seja até (chocante!!) mais bem-sucedido.
No geral, esta lista não deve suscitar mais do que interesse frívolo aos que com ela se cruzam. A quem enerva a lista Forbes 30under30, creio que verdadeiramente a poucos, um punhado de ressentidos. Inquirindo sobre os Lesados das Forbes 30under30, encontramos em todos um traço em comum no seu historial clínico: síndrome de estrelinha, caracterizado por, em maior ou menor medida, um grande ego e uma expectativa de firmar o seu nome, seja em qual for o trajeto. São as maiores vítimas da corrida a que se predispuseram correr: numa competição com a sua faixa etária, com a sensação de que a irão inevitavelmente falhar, e ainda assim correm. Sádico. Não sei porque é que estou a relatar na terceira pessoa quando já se torna óbvio que é uma descrição baseada em experiencia vivida; mas vamos manter a farsa, um conluio escritora-leitor, para tentar preservar a postura analítica e reservada, definitivamente não pessoalmente imbuída nos flagelos sociais e emocionais que a inveja cria.
E ainda assim, será legítimo etiquetá-lo como inveja? Ou será um processo mental mais complexo, mas que, para questões de comodidade e de interesses de discurso (“Tens é inveja, vai mas é trabalhar oh morcão. Com a tua idade estava eu nas obras em vez de ir chorar sobre o sucesso dos outros na internet.”), é linearmente categorizado como “inveja”?
Será risível questioná-lo depois de assumir já, preto no branco, a minha declaração de interesses sobre o tema, sob pena de parecer que estou a passar pano na minha baixaria sentimental. Ainda assim, aventurar-me-ei a fazê-lo. Eu tendo a seguir a segunda opinião, mas toda a minha análise do mundo acaba por conflituar com a opinião maioritária, ou não tivesse vencido o capitalismo e os tipos de socialização que este impõe. Por outras palavras, onde eu vejo uma imposição coletiva de sentimentos corrosivos de uns contra os outros porque o capitalismo sucede no falhanço da força coletiva por oposição ao sucesso de idiotas úteis com mitos de superação, um liberal talvez irá ver só inveja (“mucho texto Isabel”). Legítimo.
Por isso cá estou eu do meu pedestal moral, com uma carreira irrelevante ao ponto de não ter de ser confrontada com um dilema destes. É-me fácil agora criticar. Mas - permita-me o meu ego gigante debater-me agora sobre a seguinte situação - também é-me fácil agora dizer que, no caso de no futuro ser confrontada com essa decisão, nunca aceitaria fazer parte desta Lista, por uma questão de integridade moral. Mais assustador é mesmo se essa hipótese se concretizasse.
À conversa com a minha mãe sobre o meu estilo de escrita ser, digamos, um pouco cáustico, era para ela incompreensível porque quero ter eu o papel de instigadora – namedropping e tudo, onde já se viu. Mas eu tenho de confessar: dá-me gozo ser instigadora e divisiva e gerar discurso. Para uma carreira que ainda não começou, a liberdade de não ter ainda nomes da bolha a quem ter dívidas sociais dá-me ainda o sadismo de brincar com a possibilidade (e liberdade) de ser mal recebida pelas pessoas que terão os comandos para alavancar (ou não) a minha carreira, ou, por outro lado, o público em geral me ver como portadora de palavras eletrizantes e ficar do meu lado. Ou talvez seja um sinal de ainda maior covardia do que a que eu vagamente aponto a estas pessoas: sendo já vista ab initio como um problema com que lidar e não como uma facilitadora, poupo-me de, nesse cenário hipotético em que atinjo sucesso suficiente para me confrontarem com algo que me deixa desconfortável com os meus valores, não vacilar tal como os outros. Não ter a certeza se o faria mataria o meu espírito.
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Vemo-nos em breve!
Isabel Lobo
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