“Não me parece que tenhas as motivações certas.”
Ia a ler, no meu telemóvel, uma sequência de notificações, estava eu a sair do transporte público, estafada e com a totebag a escorregar-me pelo ombro abaixo por cima de um sobretudo. Imediatamente estaquei no meio do passeio quando os meus olhos pousaram nessa mensagem em particular. Ouch. Alguém me deu um ligeiro empurrão por estar a ocupar o passeio, por estar a ocupar a alienação coletiva com uma emoção não premeditada, a uma hora realmente inconveniente para ter sensações de desconcerto.
Uma mensagem a propósito de eu ter feito, preto no branco, uma declaração de intenções. Queria trazer visibilidade ao meu trabalho, e pedi para essa pessoa acreditar o suficiente nele para me ajudar nesta senda. Esta pessoa tinha a faca e o queijo na mão – não tinha realmente nada a perder por me fazer esse favor. Minto, talvez tivesse – uma ligeira suspeição que se poderia lançar sobre si ao interceder pelo meu trabalho, mas que eu tinha a certeza (tinha de acreditar nisso, pelo menos) que se desvaneceria rapidamente já que o meu trabalho falaria por si. Mas na balança de valores – na minha – parecia algo obviamente desconsiderável, algo que eu faria para um amigo, alguém em quem eu verdadeiramente acreditasse.
- Querer visibilidade não é uma motivação certa?
Em primeiro, o choque de levar com um juízo de valor de um par meu. No fundo, eu sabia que as minhas motivações pareciam (não sabia, não sei até que ponto não são) sujas, mas alguém dizê-lo de forma tão impassível. Talvez a motivação não fosse suja, mas a forma como o fiz – tão brutalmente honesta – de pedir um favor. Não sei exatamente apontar o que incomodou: a motivação a priori, a honestidade, o à vontade com que me senti para pedir um favor. De qualquer das formas, maculou a nossa interação o suficiente para receber de volta uma reação tão lacónica.
Mas é muito fácil ser lacónico na nossa integridade quando já temos o que queremos, não temos de escolher entre sujeitarmo-nos a um redondo não ou viver na indecisão de estarmos perto de alguém que pode agarrar, tão facilmente, aquilo que queríamos há tanto tempo, bastassem algumas palavras meigas o suficiente para o convencer. A mim parecia-me que a vida era uma sucessão de decisões que – existenciais – vergam, mas não até ao ponto de rutura, a nossa estrutura ética, a flexibilidade estritamente necessária para estarmos preparados para nos moldar às curvas da vida.
Ver pessoas que não tomaram essa abordagem na vida a conseguir igualmente o que ambicionavam, o que eu queria, deixava-me com um lampejo de amargura (“your integrity makes me seem small”); por outro lado, a altivez de, sabendo do lugar de ânsia de onde eu vinha, saber olhar-me de cima e agir conforme. Também não me pareceu que o tom cortante viesse propriamente de um lugar de magnanimidade. Mas o que sei eu, talvez ainda tivesse com azia de não ter tido o que queria.
- E já agora, qual é a aversão social em assumir que queremos – desesperadamente – algo?
Apesar de algo comum ao ser humano, ainda assim parece-me um comportamento exacerbado na cultura portuguesa. A performance que todos fazemos, tão graciosamente, de agradecimento depois de anos a conjurar, no silêncio da nossa almofada, o futuro que agora chega, os passos que tiveram de ser tomados, a visão estratégica das pessoas com quem te queres relacionar, a sorte que deu muito trabalho. Mas há uma repressão social que vem acoplada do processo de tentar e falhar repetidamente até conseguir. Eu, naquele momento, passei essa performance à frente – e fui castigada por isso, penso. Qual é o problema de assumir o que queremos?
- Eu tornar a visibilidade como um objetivo importante diz mais de mim como vítima da minhas circunstâncias ou do meu eixo de valores?
As minhas circunstâncias, digo, claro, a sociedade de consumo que nos rodeia, que nos pressiona a expectativas de sucesso. Thirty under thirty, com vinte e cinco anos a teres finalmente o teu breakthrough (mais tarde que isso já estás atrasado), a necessidade que agora impera de, enquanto criativo, teres uma marca para a tua arte. O que trazes para a vanguarda literária? Quais os fatores diferenciadores? Sem os fatores diferenciadores, dificilmente te conseguirás distinguir numa massa amorfa de outros que tentam, lamento.
Claro, esta questão suscita outra imediatamente a seguir. Talvez me consiga escusar das acusações de ser uma pessoa rasa, motivada por razões menos honradas que fazer arte, sendo tão somente um produto geracional. E no entanto, e se for realmente e apenas uma vítima da produção artística que dá gratificação imediata, talvez possa significar que não sou a vanguarda, agrilhoada a sentimentos tão vulgares como “saberem que existo”, “gostarem de mim e do meu trabalho”, etc. E não é o pior pesadelo do criativo não ser a vanguarda, mas tão somente medíocre?
“Não me parece que tenhas as motivações certas.”
Esta mensagem ainda flutuava na minha cabeça e na minha barra de notificações enquanto abria a porta de casa, depois de percorrido o trajeto desde o transporte público. Uma acusação velada que boiava no meu líquido cefalorraquidiano, da qual não conseguia descolar os meus pensamentos enquanto que distraidamente retirava as camadas de roupa do frio – cachecol sobretudo, pullover – e me dirigia à cozinha para preparar o refogado do almoço. Meti os meus headphones para cancelar o ruído que me perturbava, mas sem sucesso. O ruído vinha de dentro, e impedia-me de pensar em mais alguma coisa. Depois de cortado o alho e a cebola e estar o refogado em lume brando no tacho, precisei de uns momentos esparrelada no meu sofá a ponderar gravemente o que é que aquilo significava sobre mim ou sobre o meu posicionamento sobre a minha escrita. Eu sabia, que em certa medida, não estava sozinha nos pensamentos que ultimamente me povoavam o espírito, já várias vezes tinham surgido os desabafos com os meus amigos wannabe escritores sobre a angústia da aparente intransponibilidade do primeiro degrau – ter plataforma, já que o reconhecimento vem por acréscimo depois de ultrapassada a dificuldade inicial.
Mas aquela mensagem era-me veiculada em particular. Desconsiderei talvez as possíveis más intenções do meu interlocutor, fazendo um exercício de assunção total das culpas: se defletisse o peso emocional da afirmação para o meu interlocutor, mesmo que a verdade fosse que teria sido enviada com intenção de me magoar e me melindrar, não conseguiria explorar o meu máximo potencial de redenção quando me confrontou com um juízo de valor.
As questões que me suscitou, e as respostas que ficaram por dar, são as que agora coloco de novo, ainda sem resposta definitiva. No calor do momento, no entanto, atrapalhei-me na minha defesa da honra, com dificuldade em controlar as repercussões da minha resposta parca – pouco desprendida, pouco afetada por um juízo de valor. E de novo, porque é que o meu primeiro instinto é de parecer pouco afetada por alguém colocar em cheque a minha escrita, a coisa mais importante para mim? Se a busca por visibilidade corrompesse o valor, então apenas os invisíveis seriam verdadeiramente valiosos. Mas sabemos que não é assim. Qual é esta obsessão com o ascetismo na produção cultural? Talvez a pergunta certa não seja se podem andar de mãos dadas, mas porque é que nos fazem acreditar que não podem. Talvez a procura por reconhecimento não desvaloriza o que criamos – é o que nos permite continuar a fazê-lo. Visibilidade e Valor, porque não podem andar de mãos dadas?
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Vemo-nos em breve!
Isabel Lobo