02
Mar22
Maria do Rosário Pedreira
Ui, ando a ler muito menos do que gostaria, porque estou numa fase de trabalho tão intensa que trago coisas para ler em casa e depois, quando me deito, leio dez linhas de um livro e caio de sono. Mas, sim, este que agora tenho em mãos vou levá-lo até ao fim provavelmente em pouco tempo, porque é uma novela curta, tal como, aliás, a anterior que li do autor. Trata-se de Canción, criação do guatemalteco Eduardo Halfon, de quem já aqui falei a propósito do deslumbrante Luto, publicado no ano passado, que falava do mistério que rodeava a morte de uma criança, cujo nome, Salomón, viaja também, curiosamente, para este livro. Canción trata, entre outras coisas, do sequestro do avô do narrador (narrador esse chamado Eduardo Halfon, como o autor) em plena guerra da Guatemala, nos anos sessenta; mas principia com a ida de Halfon ao Japão para um congresso sobre literatura libanesa e logo nos transporta até à sua infância, mais especificamente a um almoço em que Eduardo conhece a priminha Berenice, o tio Salomón lê nas borras do café um futuro que nunca confessa, o tio Nono está doente numa cama do andar de cima e um grupo de militares faz o dono da casa levantar-se da mesa do almoço de família e fecha-o no seu escritório, deixando toda a família gelada de medo. Agora entrou ao barulho o senhor Canción, que foi carniceiro e esteve preso, mas isso já não posso contar. Adivinho, porém, mais uma pérola de um grande escritor.