Sobre ursos
infância, hibernação, metáfora, reflexão existencial, linguagem
Descobri que tem crianças que confundem o v com o f. Inverno, inferno. E os adultos ainda acham que as crianças têm problemas, ou pior, que são bobinhas Sibélia Zanon O urso polar me olha do andar superior do armário. Faz um tempo que ele foi transferido para essas terras tropicais, chegou com fita vermelha no pescoço, entrando diretamente na minha infância. Eu não pude ainda me desfazer dele. De vez em quando ele me olha lá de cima para me contar sobre quem eu sou. Outro dia me peguei olhando para ele e pensando sobre o direito ao sono comprido. O outono está chegando e talvez por isso tenha pensado sobre a beleza de hibernar. Os ursos se preparam para a tarefa. Posso ter me lembrado disso também porque o outono da humanidade está bem adiantado. Muitos poderiam bem confundi-lo com o inverno. O urso polar de Sibélia Zanon (acervo pessoal) Penso em como seria hibernar por um período. Deve ser como uma viagem distante, daria para chegar quase em Marte. Encontrar ursianos em sonho e perder o chão dos pés. Hibernar é quando os pés moram na cama por gosto e não por impossibilidade. A temperatura do corpo cai, a respiração é diminuta e os batimentos do coração ficam quase inaudíveis… um estado de silêncio profundo. Será que hibernar por uns tempos me faria mais inteligente para entender as emoções que o coração bombeia pelas curvas? Aprender sobre os impulsos do coração parece ser tarefa útil para se manter vivo. – Ursa Maior, quando eu hibernar, vou visitar você. Descobri que tem crianças que confundem o v com o f. Inverno, inferno. E os adultos ainda acham que as crianças têm problemas, ou pior, que são bobinhas. Aliás, gostaria de perguntar aos adultos: por que ganhamos ursos quando crianças? É um bicho que, pela vida inteira, jamais poderemos abraçar. Seria esse já um prenúncio do inverno? Um ensinamento subliminar sobre a vida? Se fossem cachorros de pelúcia ou bichos-preguiça… O urso me olha austero lá do andar de cima do armário e diz que o inverno tem coisas para contar. Eu sei. Eu sei que quem hiberna não escuta as histórias. Sei que é preciso manter os pés quentes para a dureza do frio não contagiar os órgãos vitais. Sei que só não paralisa quem se movimenta. O urso me olha querendo lembrar que saber não basta. Sibélia Zanon é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.
Texto originalmente publicado em Revista Fina