Acervo da autora Sibélia Zanon Não tenho apreço especial pelos grilos quando pulam desordenadamente. Mini taquaras desgovernadas pelo vento. Impossível encontrar um deles no quintal e batizar, saber que amanhã ele estará ali de novo e mais uma vez e depois mais outra. Dizem que existem mais de 900 espécies de grilos – como decifrá-los? Eles não são gatos com seus olhos coloridos ou cachorros com uma mancha preta na pata esquerda, nem mesmo teiús que, por seu tamanho e pelo comprimento do rabo, até comportam o batismo. Mesmo sem nome e sem amanhã certo, tem noite em que os grilos me resgatam pelos ouvidos e me levam. Saímos pelo quintal e adentramos uma terra sem porteira, uma floresta sem dono, um lugar de bicho sem tamanho e de gente sem necessidade de ter importância. Esqueço quem sou e me deixo ir. Lá ninguém se incomoda com apagão, não sofre o aquecimento global, nem entende bem o que é sofrer. Lá a luz funciona por bioluminescência e a temperatura se regula pelas asas da mariposa ou de uma pessoa que se confundiu de ser bípede. Alguns me culpam por eu passear por lá. Querem me arrastar pelos cabelos para a Terra do Sempre. Me lembro dos meus cabelos rebeldes da infância. Minha mãe queria a escova. Eu queria os cachos. Hoje eu tento explicar. Falo baixinho. Às vezes grito mesmo com todos os meus pulmões: – A realidade não é aqui, ela está lá. Eu não sou grilo e poucos me escutam.