12
Jun10
Maria do Rosário Pedreira
Quando vi o filme Lost in Translation, de Sofia Copolla, uma das coisas de que mais gostei foi do ar nunca aperaltado e sempre confortável da protagonista, que nos faz sentir irremediavelmente próximos dela. Nunca a belíssima Scarlett Johansson aparece de lingerie de renda (talvez um realizador masculino não resistisse), mas apenas de cuecas e T-shirts de algodão com um ar completamente humano (o que, numa mulher muito bela, por vezes até é mais difícil). Este lado cómodo mas irresistível seria difícil de representar por palavras num romance, no qual uma mulher assim nos pareceria quiçá ligeiramente desmazelada e sem graça. Mas há excepções, claro, e nesse livro maior que é Ruído Branco, de Don DeLillo, Babette, a mulher do protagonista – uma gorducha de fato de treino e pantufas, um tanto new age, muitas vezes com o filho mais novo pendurado nela –, consegue ser bastante mais sexy do que seria de esperar e atrair as atenções dos homens para a sua normalidade esplendorosa. Talvez isso aconteça porque o narrador é o marido, e está decididamente apaixonado por ela. Ou porque DeLillo é, na verdade, um escritor muitos pontos acima do normal.