08
Abr22
Maria do Rosário Pedreira
Um almoço de folhas de alface, ananás e queijo fresco. Sentado à mesa da cozinha com um guardanapo cor-de-rosa sobre os joelhos, comeu com a suspeita de que aquilo era uma piada, de que a viúva estava a mangar com ele. Mas ela comeu também, e com tanto apetite que se diria estar a apreciar a refeição. Se Maria alguma vez lhe pusesse à frente aquele tipo de comida, ele atiraria com o prato pela janela fora. A seguir, a viúva serviu-lhe um chá numa chávena de porcelana fina. No pires havia duas bolachinhas brancas, do tamanho de uma unha de polegar. Chá e bolachinhas. Diavolo! Para Bandini, beber chá era sinal de efeminação e fraqueza, e além disso não apreciava doces. Mas a viúva, trincando a bolacha que segurava com as pontas dos dedos, sorriu-lhe amavelmente, enquanto ele despachava as dele como quem engole comprimidos. [...] De vez em quando, ela sorria-lhe, uma das vezes por cima do bordo da chávena. Aquele silêncio embaraçava-o e entristecia-o: a vida dos ricos, concluiu, não era para ele. Se estivesse em casa, teria comido ovos estrelados e um naco de pão, regados com um copo de vinho.
John Fante, A Primavera Há-de Chegar, Bandini,
tradução de Rui Pires Cabral