Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Eram cinco e trinta da manhã quando o homem se levantou. Acordou com uma sensação diferente: estava mais aborrecido e mais exigente consigo mesmo. Menos “normal”, diriam (mas qual seria o seu normal?). Mais um dia: agora são sete dias “anormais”. E para alimentar e amplificar aquelas sensações, o alarme do seu celular não o deixava em paz fazia dez minutos, ao tocar a mesma música “The March of The Swordmaster.

“Cala boca, capeta dos infernos!”, disse ele ao aparelho, desligando-o.

“Começou muito bem o dia”, comentou sua Mãe em algum ponto da sala contígua ao seu quarto.

O rapaz silenciou; em seguida, resmungou baixinho: “Eu mereço isso, agora. Por que as coisas não podem acontecer comigo como acontecem à maioria das pessoas?”.

Antes de ele se levantar, como de costume, fez um rápido sinal da cruz sobre o peito cabeludo; esticou as pernas, braços e dedos com a intenção de estalá-los; colocou o pé esquerdo propositadamente no chão antes do direito; ficou de pé; inspirou e expirou; caminhou até a porta; “abriu-a” – na verdade essa porta ficava entreaberta, pois era a única da casa sem fechadura; antes de sair sondou rapidamente o quarto, até estacionar os olhos em algumas redações, provas – sobre e sob a mesinha – e no livro “Infância”, de Maksim Górki; por fim, atravessou a “sala da televisão”, cozinha e a área de serviço em direção ao minúsculo e reformado banheiro. Nesse ínterim, passou pela sua genitora e disse:

“’Bença’ Mainha”.

“Deus te ajude. Posso saber o porquê dessa cara feia?”

“…”

“Tem aula hoje?”

“Tenho”.

A Mãe sempre sabe quando o filho não está bem (esse em especial era muito fácil de identificar: nenhuma piada estúpida; nenhum comentário sem sentido; nenhum sorriso infantil). “Esse não é o meu filho”, pensou. Ela precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? Perguntar? Conversar? Corrigi-lo? Diga alguma coisa pelo amor de Deus, alguns diriam. Eduque-o. Todavia ela escolheu não fazer nada. Orou por ele; e decidiu respeitar o seu silêncio.

No banheiro, diante do espelho, o rapaz se observava: barba enorme; grandes olheiras; a calvície cada vez mais visível; o semblante caído; ríspido; amargurado. Envelhecera cinco anos em sete dias. “Trintão, pareço um trintão”, disse ele sorrindo. Mas estava na hora de mudar. “Mudar pra quê mesmo? Pra quem? Por Ela, ou por ela? Que seja por Ela, então (ou pelos alunos)”.  O rapaz passa a espuma de barbear no rosto; escolhe uma das muitas navalhas reutilizadas; mas, quando começa a se barbear, decide por não o fazer. “Esse sou eu?”, pensou repentinamente. Nesse momento a campainha toca. O rapaz ouviu, mas não deu a mínima atenção àquele ruído. Ao invés disso, ele coloca serenamente as mãos sobre o espelho e fala baixinho, como se quisesse falar com o próprio espírito: “O que está acontecendo comigo?”. Novamente a campainha toca. Num rompante, ele grita: ”Deve ser aquela retardada atrás de Mainha! Pelo amor de Deus!”. A campainha persiste: toca uma vez, duas, três, mas o homem continua sem ‘mover uma palha’. Ele abre um pouco a porta do banheiro e aos berros chama: “Mainhaaaaa, tem alguém chamando lá na frente! Mainhaaaaaaaaaa! Caramba, que lerdeza! Foi pra onde?”. A campainha silencia. Ele também.

Por fim, depois de alguns insuportáveis minutos esperando pelo desfecho, ele vê a sua Mãe atravessar a cozinha em direção à sala da televisão. O Jovem, que estava com a cabeça fora do banheiro, fecha violentamente a porta, e volta para o espelho. Então, à meia voz, diz:

“Vamos acabar com essa confissão? Sendo ‘Eu’ ou não, preciso trabalhar”. E vira as costas em direção ao chuveiro.