Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Já levantou tarde, mas não se preocupou: precisava se barbear. Antes de sair do quarto olha a cama, agora vazia. Sua esposa saiu há bastante tempo, trabalha às sete. Ele normalmente dorme até as oito. São oito e cinquenta e entra no trabalho às nove. Há dez anos se sente só.

Olha seu reflexo e se entristece. É aquele espelho, velho. Há manchas, mas não consegue dizer se estão no espelho ou no seu rosto. Imagina se é possível consertar o espelho. Ontem ouviu no rádio que descobriram a cura para alguma doença antes dita incurável. Não lembra se era diabetes. Não tem certeza se ainda deve acreditar na medicina. Ou no rádio. Há muita mentira por aí mesmo, pensa, enquanto agita a espuma de barbear nova que comprou antes de ontem. Enche a mão. Colocou mais do que precisa, mas sua mulher não está ali para reclamar. Nem sua mãe. Nem seu irmão mais velho. Resolve encher a outra mão também, mas é um pouco complicado, não quer sujar tudo. Afinal, desiste da ideia.

Espalha suavemente a espuma sobre a barba. Lembra do comercial da TV que fê-lo escolher aquela marca. Não parece tão refrescante. Tenta sorrir, mas não consegue. Não há sentido nenhum em manifestar externamente – e reflexivamente – alegria ou contentamento (ainda que sentisse internamente qualquer coisa além do tiquetaque diário que o avisa quando é hora de acordar, escovar os dentes, trepar, barbear-se, tomar o longo cafezinho no trabalho, mentir). Julga-se bastante inteligente por ter tido esse pensamento.

De lâmina na mão, percebe agora que não consegue mais mentir para si (já que não sorriu para seu reflexo no espelho). Não consegue, portanto, levantar o rosto. Pensa em se barbear-se daquele jeito, de cabeça baixa, mas teme um acidente. E tem repugnância a sangue. Vê-se num impasse, pois não quer desperdiçar a espuma.

A campainha toca, estridente, e, com o susto, solta a lâmina, que cai próxima ao vaso. Abaixa-se cauteloso. Bem que poderia ser o telefone, pensa, e não a campainha. Tenta ainda com mais força se ver no espelho, mas ainda não consegue.

Estou tentando ser verdadeiro novamente ou voltar a mentir? Pensa em outra coisa. Cada vez que a campainha insistir fará uma nova tentativa. O método não dá certo e após a quarta tentativa fecha a porta. Hora de tentar outra abordagem. Vai lavar o rosto. Antes, porém, um pensamento o enleia: queria alguém a quem me confessar!

Enche a pia com água até transbordar e, sem qualquer preocupação asséptica, mergulha o rosto demoradamente, provocando o derramamento de água fria nos seus pés descalços. Deixa o rosto esfriar, a espuma dissolver. Espera. Decide, por fim, que não vai levantar o rosto, mas puxar a tampinha da pia com os dentes e deixar a água secar, algo que exige uma habilidade maior do que supunha. Só quando a pia está vazia sorve o ar e, num impulso, levanta a cabeça.

Para o seu espanto, consegue fitar a si mesmo, mas desta vez como se algo houvesse mudado.

Enxuga o rosto e senta no vaso, esperando que a campainha silencie.