– Mas então não entendi nada. Se era coisa boa, aliás, boa não, maravilhosa, ainda mais nesse país de bosta que não valoriza estudo, por que essa cara de tristeza? Esse bico de quem vai abrir o berreiro a qualquer instante?

Maria Paula Curto*

Antonio entra em casa cabisbaixo. Joga a mochila no sofá, se joga na poltrona da vovó, que usa para suas leituras e solta um berro: Como foram fazer isso comigo? Sua mãe larga a panela no fogo – as batatas ainda vão levar um tempo até estarem bem cozidas para o purê que vai acompanhar o rosbife que ela fez com tanto carinho no domingo – e corre para a sala.

– Menino de Deus, o que aconteceu?

– Tudo, mãe, tudo.

– Tudo o que garoto, fala logo! Te roubaram? Foi isso? Levaram o teu celular? Você não está machucado, está? Deixa a mãe ver…

– Para mãe, não é nada disso.

– Então foi bullying? Alguém te xingou? Conta logo que eu vou lá dar na cara do desgraçado que teve a coragem de falar mal do meu menino mais lindo da mamãe…

– Ai, mãe, sinceramente, com você não dá.

– Ôxe menino, como assim? Largo tudo na cozinha para te socorrer, correndo o risco de perder o almoço e você me dá patada? Vai te lascar então.

– É que eu ganhei uma bolsa de estudos. Para estudar três meses fora.

– Ué, mas você não queria tanto estudar fora? Ser independente? Viver num país estranho, diferente? Do que você está reclamando, santo Deus? Não era para comemorar?

– Era, era para pular de alegria.

– Mas então não entendi nada. Se era coisa boa, aliás, boa não, maravilhosa, ainda mais nesse país de bosta que não valoriza estudo, por que essa cara de tristeza? Esse bico de quem vai abrir o berreiro a qualquer instante?

– É que eles vão me mandar para a Noruega.

Ô filho, tem problema não você passar o Natal longe de casa. Mamãe fica bem. A gente se fala de vídeo pelo zap. Tá tudo bem, se preocupa com isso não. Foto: Reprodução.

E é ruim na Noruega, filho? Tem guerra? Terremoto? Ou aquele negócio, como é mesmo? Tirumame?

– Tsunami, mãe, tsunami.

– Tem isso lá?

– Não mãe, não tem nada disso na Noruega.

– Amém, senhor!

– É um país superseguro. E rico. O problema não é esse.

– Ô diacho, qual o problema então?

– É que a bolsa é para passar dezembro, janeiro e fevereiro lá.

– Ô filho, tem problema não você passar o Natal longe de casa. Mamãe fica bem. A gente se fala de vídeo pelo zap. Tá tudo bem, se preocupa com isso não.

– Não é o Natal o meu problema.

– Ano Novo? Mas ano novo você já não passa aqui comigo mesmo, então pra que a preocupação?

– Não, também não é o Ano Novo.

– Mas então o que é, meu Deus do céu? Vai me dizer que o problema é o Carnaval? Larga dessa besteira, moleque, Carnaval tem todo ano! No outro ano tu vai nos blocos.

– Que Carnaval que nada.

– Então desembucha logo o que tá pegando, pois eu já tô sem paciência.

– É o frio!

– Mas dezembro, janeiro e fevereiro faz o maior calorão!

– Lá não mãe, lá é muito frio. MUITO frio.

– É mesmo? Frio quanto?

– Chega a -20, fácil.

– Eita, lasqueira.

– Como eu vou aguentar? Como?

– Bota bastante agasalho, cachecol, gorro e meia de lã. Ou se enrola num cobertor, sei lá.

– Eu não vou dar conta. Não vou conseguir sair na rua.

– Menino, deixa de besteira.

– Eu vou me tremer todo. Vou ficar com aquela coceira braba, aquelas manchas vermelhas.

– Não começa, Tonho. Pensa em tudo de bom que você vai poder viver lá. É uma chance de ouro, meu filho. Não vai perder por bobagem.

– Bobagem? A senhora sabe o quanto eu detesto frio. Que meu negócio é calor.

– Então você tinha que estudar camelo, né? Ou caatinga. Para viver naquela quentura do meu Nordeste. Mas foi escolher estudar esse negócio de livro, filosofia, sei lá. Essas coisas que mexem com a cabeça da gente… Essas coisas não dá para estudar no calorão não, filho. Os miolos da gente derretem.

– Mas mãe…

– Nem mais nem menos mãe. Bora arrumar essa mala e se preparar para esse friozão todo. Não quero mais ouvir chororô nenhum não. Bora botar um sorriso no rosto e tascar um ceroulão dentro da mala. Se esquentar os pés e os “países baixos”, esquenta tudo. Vai por mim.

– Onde eu acho um ceroulão?

– Mas menino, você tem essa jaca desse celular pra quê? Procura aí nesse tal de Gugu. Ele num acha tudo? Vai achar ceroulão também.

– Mas mãe…

– Quieto menino, não enche! E deixa eu correr pra cozinha que a batata já deve ter virado mingau!!!

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é img_4616-1.jpg

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP