Todo objeto nasce com uma sina, assim como todo homem. Retirem o nome de alguém e o possuirão. Retirem a função de algo e ele vira o arremedo da sua própria criação, um pastiche. Uma risada. Um desconforto.
Estou no Forte Santana, em Florianópolis, SC. O sol insulta as pedras brancas. O barulho onipresente de carros enche o mundo e sufoca o resmungar das águas que arremetem ao redor. Pela janela do Forte, um canhão discreto olha o mundo que cresceu ao seu redor, lembrando da sua época de glória – o tempo em que a sua boca estraçalhava o horizonte em chamas de raiva.
As nuvens costuram o mundo. Outros canhões permanecem em soturna vigília, guardando com o seu olho de ciclope as águas circundantes. Cada mínimo movimento das ondas pode representar um perigo e eles não relaxam a sua vigilância. Tiraram as balas, tiraram a pólvora, tiraram a função, mas eles ainda se comportam com a dignidade daqueles que se imaginam serem úteis.
Se os ouvidos humanos fossem mais atentos e menos primários, seria possível entender o diálogo que os dois cansados canhões travam. Lembram das suas épocas de guerra? Lembram quando seu tonitroar rivalizava com o dos trovões? Lembram quando eles possuíam o último e decisivo comando sobre a vida alheia? Hoje eles trocam reminiscências de ferrugem, mas, no passado, as suas vozes resplandeciam com o orgulho jovem do aço e da fúria.
Um canhão não deixa de ser canhão. Ele somente envelhece. E desaprende a falar.
Se pensarmos nas cenas com olhos fora dos limites do Tempo e do Espaço, não seria tão difícil visualizar lá, no horizonte, na linha dupla de nuvens cheias de impossíveis, uma esquadra de navios fantasmas preparando-se para trazer a morte para a cidade. Somente os canhões protegem as pessoas, com o seu aviso silencioso: aproximem-se e serão exterminados.
Os fantasmas morrem de medo, mas não sabem que os canhões protegem o mundo através do blefe. E não somos todos assim, blefadores que fingem estarem com jogos melhores do que a realidade nos impõe?
O nervosismo é palpável. Os canhões se agitam dentro das suas estruturas enferrujadas. Esquecemos de avisá-los que a vigilância acabou, que a guerra acabou, que não existe mais perigo, e assim eles ficarão até a Eternidade, esvaziados de sentido, realizando tarefas automáticas que escondem a sua irrelevância. Um canhão que não atira não é mais um objeto, é uma paródia. Crianças brincam ao redor, diante dos olhares atônitos das bocas de ferro que não sabem mais quem é amigo e quem é inimigo.
Precisamos avisar os canhões de que eles não mais o são. Mas temos tal direito?
A vida sacode as águas próximas, que cintilam com o ofuscar de diamantes, com as escamas dos peixes. Ao longe, a silhueta incômoda da cidade que deve ser protegida e cujos perigos não vem mais pelo mar, e sim se revolvem nos seus mosaicos de ruas.
O olhar do canhão é melancólico. Vendo o barco que passa próximo, ele brinca de fazer e desfazer a mira, sabendo que nunca virá o tiro que lhe dará alivio. O canhão é um cadáver exposto ao sol e à chuva.
No meio do seu silêncio altivo, o canhão sonha com o dia em que voltará a ter significado. Sonha com o dia em que as suas balas atravessarão o universo e estilhaçarão o horizonte.
Até este dia chegar, ele deve permanecer em silêncio, espreitando a vida que lhe cerca, invejando o mar que pode ir para longe.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo






