No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, falei de como pode ser instrutivo conversar com quem pensa diferente de nós.

Mas também imaginei uma conversa em que o Juiz Moro, ao melhor estilo dos “priests” do jogo “Age of Empires”, fazendo “ololôôô” e mexendo as mãos, converte seus inimigos; imaginei o milagre que aconteceu nesse jantar de Moro e Karnal (por Tutatis, duas pessoas conversando!) e terminei prestando tributo a alguns poucos amigos com quem ainda consigo manter a alegria de uma conversa.

Boa leitura.

O prazer de conversar com o “inimigo”

Nos últimos anos, tornou-se frequente em eventos literários. Em algum momento, uma pessoa da plateia levantará a mão, irá se identificar como escritora, reclamar que não existem mais histórias originais no mundo (como se a imaginação tivesse um ponto de origem e, por lógica, um final melancólico, quando todas as ideias se tornariam clichês) e, ao final, irá afirmar, com a devida pompa, que se recusa a ler clássicos da literatura, temendo uma “contaminação” da sua própria criatividade.

Quando isso acontece, eu preciso controlar as risadas. Em primeiro lugar, por que duvido que os artistas do passado estivessem preocupados com os níveis mundiais de criatividade; estavam em luta feroz contra o seu próprio fazer artístico e, neste contexto, o resto do mundo era a última de suas preocupações. Em segundo lugar, por que o meu maior desejo era ser contaminado pela habilidade de um Shakespeare, ou pela vivacidade envolvente de um Goethe ou pela elegância estilística de um Bioy Casares. Contudo, por mais que eu faça leituras para ser contaminado, ainda não consegui.

Brincadeiras à parte, essas duas ideias não estão somente em conversas sobre literatura, mas por todos os lugares. Tornou-se comum escutar reclamações de pessoas dizendo que não se sentem mais criativas, pois todas as boas ideias do mundo acabaram, estamos só requentando material antigo. Muito mais grave é o pensamento de que, se escutarmos as opiniões de alguém, podemos sofrer uma contaminação das nossas ideias. Conversando com os outros, podemos até – vejam que horror! – mudar de opinião.

Até agora, nunca conheci o caso de alguma pessoa capaz de convencer os outros usando somente a força da sua lábia. Nas vezes em que isso aconteceu, era por que o debatedor demonstrou, através de uma lógica irrefutável, que estava certo, e o pensamento do outro ficou tão frágil quanto uma flor de algodão. Ainda assim, existem inúmeras pessoas se orgulhando de cortar relações e conversas com aqueles que pensam diferente, temendo o “contágio” das ideias que lhe contrariam.

Ideias não contaminam pessoas. Elas não são um vírus ou uma bactéria, capazes de ingressar em corpos alheios e de controlar mentes. As ideias podem nos irritar quando são muito diferentes daquelas que possuímos, mas não estão necessariamente erradas. Cada pessoa tem a sua maneira de ver o mundo, e ninguém está mais certo ou mais errado do que o outro. Ainda assim, vejo pessoas afirmando que irão excluir do seu convívio quem pensa diferente, e mencionam isso com certo orgulho, quando a própria falência da capacidade de diálogo de duas partes deveria ser lamentada.

A esta altura do texto, o leitor atento percebeu que estou falando sobre a foto veiculada na internet na sexta passada, em que o filósofo Leandro Karnal e o juiz Sérgio Moro apareciam jantando juntos. Na legenda da foto, Karnal falou mais ou menos o que acabei de escrever: o fato de ter ideias opostas não impede dois lados de conversarem. Ainda assim, a reprovação da sociedade foi tão contundente, e tão fortes foram os ataques, que a foto acabou sendo retirada. O que era para ser uma ode ao diálogo livre entre dois pensamentos opostos se transformou em medo do linchamento virtual.

Não sei se Leandro Karnal fez certo ou errado ao sair para jantar com Sérgio Moro. Contudo, penso que seria muito inusitado se, durante a conversa, Moro falasse uma série de palavras – ou um encantamento em latim, afinal, ele é da área do Direito, e todos sabem um pouco de latim no Direito – quando, subitamente, Kanal notaria que sempre esteve errado, tornando-se um paladino ardoroso em defesa da operação Lava-Jato. Seria tão incrível que é uma pena que as chances de acontecer algo assim sejam quase nulas.

Prefiro pensar que aconteceu algo ainda mais formidável: duas pessoas diferentes sentaram-se frente a frente em uma mesa e CONVERSARAM. Em um mundo onde todos conversam com a atenção desviada para os celulares ou televisores, dois homens tiveram que voltar ao passado e conversar, sem apelos para a tecnologia e números, sem nada mais que não fosse a lâmina afiada de uma reflexão pessoal. Cada um apresentou os seus pensamentos, esperando a vez do outro falar, sem ataques pessoais e sem ironias direcionadas às suas famílias, sexualidade ou opiniões religiosas. Falaram somente ideias. Degustando uma comida que (suspeito) era deliciosa, tomando um vinho de safra não nobre, mas honesto e elogiável, os dois conversaram sem o desejo de convencer o outro de maneira violenta. Em alguns pontos, imagino que Kanal tenha capitulado; em outros, tenho certeza de que Moro relutantemente admitiu que estava errado. Quando se despediram na noite de sexta e cada um seguiu o seu caminho, os dois homens estavam com as mesmas convicções de quando começaram a conversa, mas não estavam mais tão seguros de alguns posicionamentos. Eis a magia de um diálogo em que se trocam opiniões: ninguém sai igual ao jeito com que começou.

Nesse aspecto, sou uma pessoa afortunada. Nos últimos anos, cerquei-me de pessoas que – ainda bem – pensam diferente de mim. Aos poucos, fui eliminando interlocutores raivosos, incapazes de conversar; também deixei de buscar pontes de compreensão com fanáticos, pois eles são cansativos. Hoje, quando saio com as pessoas inteligentes com quem é um prazer conversar, consigo ver os pontos em que meu pensamento estava cego por falta de conhecimento, assim como ajudo a desconstruir ideias preconcebidas alheias. No espaço da conversa, somos livres para dizer o que bem quisermos, sem julgamentos e sem agressões. Dialogamos para entender melhor o mundo, não para mudar o interlocutor.

O único detalhe que achei lamentável no jantar de Kanal e Moro foi o filósofo ter retirado a foto dos meios de comunicação algum tempo depois. Ele demonstrou surpreendente fraqueza moral para alguém que elogiou a força do diálogo entre os opostos. Ao renegar a foto, Kanal acabou mostrando que a força bruta e a imposição quase física de argumentos é mais importante do que ouvir e respeitar o contrário.

Dito isso, deixo o leitor com uma pergunta: você já conversou de verdade com alguém hoje, sem intenção de mudá-lo, mas buscando mais compreensão? Se não fez ainda, não sabe que está perdendo um dos grandes prazeres da vida: debater ideias sem medo de ser xingado ou condenado pelo “crime” de ter pensamentos próprios.