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Mai21

Maria do Rosário Pedreira

Tive saudades deste livro que li no fim do século passado; e esta cena, particularmente, foi-me evocada pela leitura do livro de Marieke Lucas Rijneveld, O Desassossego da Noite, vencedor do Man Booker International Prize, que sai daqui por quatro dias. Uns católicos, outros protestantes, a mesma tristeza em ambos.

Falta pouco para o padre nos vir fazer o exame de Catecismo. O professor tem de nos ensinar como é que se recebe a Sagrada Comunhão. Manda-nos juntar à volta dele. Enche o chapéu de bocadinhos de papel de jornal. Entrega o chapéu ao Paddy, ajoelha-se, diz-lhe para tirar um bocadinho de papel e lho pôr na língua. Mostra como se deve fazer: pôr a língua de fora, receber o bocadinho de papel, esperar um momento, meter a língua para dentro, pôr as mãos, levantar os olhos para o céu, fechar os olhos em adoração, esperar que o papel se derreta na boca, engoli-lo e agradecer a Deus aquela dádiva de receber a paz da Graça Santíssima. No momento em que ele põe a língua de fora, temos de fazer um esforço para não nos rirmos, porque nunca nenhum de nós viu uma língua tão grande e tão vermelha. Ele abre muito os olhos para ver quem é que está na risota, mas não pode dizer nada porque ainda tem Deus na língua e é um momento sagrado. Levanta-se e manda-nos ajoelhar à volta da sala para treinarmos a Sagrada Comunhão. Dá a volta à sala, a pôr-nos bocadinhos de papel na língua e a dizer umas coisas em latim. Alguns dos rapazes riem-se, e ele grita-lhes que, se não pararem com a risota, não é a Sagrada Comunhão que vão receber, mas os Últimos Sacramentos...

Frank McCourt, As Cinzas de Angela, tradução de Maria do Carmo Figueira