17
Mai21
Maria do Rosário Pedreira
Chama-se Marieke Lucas Rijneveld e é, na verdade, ainda uma menina, aliás, tem cara disso. Embora tenha passado a maior parte da sua vida a trabalhar numa vacaria, isso não a impediu de criar e foi aplaudida e premiada na sua estreia poética. Depois, arriscou o compromisso mais demorado da ficção e, mais uma vez, saiu-se muitíssimo bem, pois a tradução inglesa do seu romance O Desassossego da Noite arrebatou no ano passado o Man Booker International Prize, levando a que fosse traduzida em todo o lado. A tradução portuguesa sai amanhã e preparem-se para a história do desmoronar de uma família, contada sem paninhos quentes por Cas, uma menina de 12 anos. Quando Cas rogou uma praga ao irmão por não a querer levar com ele a patinar, nunca pensou que funcionasse. E agora sente-se profundamente culpada: o gelo estava demasiado quebradiço e levou Matthies para sempre. E, além da culpa insuportável que, como o seu casaco apertado até ao queixo, não mais a deixará, Cas verá a dor abater-se de forma implacável sobre os pais, um casal profundamente conservador e devoto que quer acreditar que Deus chamou Matthies para junto dele, mas que não consegue, mesmo assim, deixar de ficar paralisado pelo desgosto, sem se aperceber de que os outros filhos – Cas, Hanna e Obbe – se vão afastando lentamente para encontrar, no abandono a que foram votados, estratégias que lhes permitam lidar com a tragédia, mesmo que isso implique muitas vezes violência e desassossego. Inspirado num episódio autobiográfico, O Desassossego da Noite, descrito como a «evocação terna e visceral de uma infância presa entre a vergonha e a salvação» pelo presidente do júri do Man Booker Prize, revela um talento invulgar em alguém tão jovem. Uma menina que é uma senhora a escrever.
