andré laurentinoa paixão de amãncio amaro 

   Um menino não consegue decorar seu próprio nome pois este, completo, ocupa três páginas inteiras do livro de batismo da matriz de Santana. Pior ainda: qualquer chamado que ouve é um susto, sempre pode ser para ele. Esse é um dos tantos motivos que o levam para lugares isolados dentro dos canaviais, onde em meio a intensas atividades masturbatórias, reconta e corrige os fatos biográficos da sua insustentável leveza de ser. São suas  “ilhas de vontade”: “Sem ter nem para quê, no susto, sem planejamento prévio, veio-lhe o pai a pedir perdão. Não sem antes tomar uma bela sova de um só golpe, que pôs o homem no lugar que lhe cabia, prostrado no chão. Outra vez não escaparam à imaginação de Amâncio os detalhes. Tão exatos que faziam tudo ser mesmo passível de verdade; que fariam até Deus se confundir sem saber se aquilo fora ou não fruto de Seus próprios desígnios…Tudo perfeito! Na calmaria dos partidos de cana o mundo era seu.”

     Amâncio sofrerá uma cruel queda desse paraíso artificial, cujo Verbo (“no início…”) talvez tenha sido o motivo que levou seu pai a criar uma pedra dentro de uma gaiola como passarinho fosse,  não um qualquer, e sim um passarinho específico.

    Os parágrafos acima procuram sugerir ao leitor, ainda que de forma pálida, a surpreendente criatividade e a esmerado trabalho de linguagem de A paixão de Amâncio Amaro. Não dão conta é do flexível enredo, que narra, em alternância, a história dos pais do protagonista, igualmente fraturados em sua identidade. Para se ter uma idéia: Culadinha, a mãe, tem um defeito descrito pelo povo como “olhos trocados” e que a torna muito feia. Mas ela encontra nos cacos de espelho (que passam a ser seu refúgio) o avesso da sua imagem e a perfeição: uma moça linda.

    Não se espere desse belo romance de estréia do pernambucano André Laurentino coronéis, quengas, jagunços, beatas, seca, disputa de terra, as receitinhas (das quais a tevê e o besteirol se apropriaram) habituais da ambientação nordestina.  Laurentino às vezes até faz lembrar os melhores aspectos das peças de Ariano Suassuna, mas sua Santana é muito pessoal, peculiar como só um universo literário que vem da intuição e da experiência pode ser.

    Os escorregões na qualidade do livro se devem justamente ao uso de truques e elementos derivativos, frutos dessa necessidade brasileira de manter o Nordeste no pitoresco: é o caso da habilidade fantástica do pai de Amâncio em se disfarçar (poste, pote d’água, por exemplo), da vingança de Exú contra ele, da febre por refrigerantes motivada por essa vendeta (eles viram remédios caseiros e afrodisíacos). São episódios divertidos, entretanto soam falso e acrescentam pouco à dicção renovadora que A paixão de Amâncio Amaro traz a um terreno do qual já não se esperava nada nesse sentido: o regionalismo, mais especificamente o nordestino, o qual finalmente dá mostras de ressurreição, como se pode verificar também nas obras de Maria Valéria Rezende, Vasto Mundo e O vôo da guará vermelha.

    O legítimo talento de Laurentino está em esboçar com perícia a paixão que já foi de Cristo, já foi de G.H. e agora  também é a do seu herói: “Estava outra vez sozinho no canavial. Mas de um jeito diferente, muito distinto daquele em que, naquele mesmo lugar, era senhor de si e das coisas…Desejava o poder de sumir, mas calhou desta vez de desejar sem poder. As coisas que pensava não aconteciam.

    Tudo o que a vida tem de dissolvente e evanescente crucifica Amâncio Amaro, contudo o alto quilate revelado pela linguagem do seu criador acaba resgatando-o e  tornando-o bastante palpável para nós, que vivemos paixão similar, embora com menos nomes. Ou talvez todos os nossos nomes, juntos, sejam o dele também.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, de forma um pouco mais condensada, em 07 de abril de 2007)