AO SR. AQUILINO RIBEIRO.


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«Justamente, é esta circunstância que dá excepcional e oportuna significação ao meu aparecimento na sua obra. Sem que seja preciso atribuir o seu convite a esse secreto empenho de dar um público e salutar exemplo de tolerância a uma sociedade concentrada e retraída nas suas paixões, o  facto de demonstrarmos ser possível a dois adversários políticos o darem-se cordialmente as mãos basta para desbanalizar este prefácio, que eu nunca saberia afinar pelas belezas capitosas da sua obra de artista. E eu quero, por isso mesmo, não só testemunhar-lhe o meu reconhecimento por haver arrancado da obscuridade o meu nome, dando-lhe um lugar de imerecida evidência no seu livro, mas também declarar que nele me sinto à vontade, sem o mais leve constrangimento. É que nós somos, muito mais do que à primeira vista parece, semelhantes. Ambos pertencemos à família, cada vez mais reduzida, dos que têm a coragem das suas opiniões, dos que sabem sacrificar-se pelas suas crenças, dos que podem viver e morrer com a sua fé. Esta identidade de carácter, que nos permite, ao revolucionário e ao conservador (e o meu conservantismo vela piedosamente a obra revolucionária de meus avós) entendermo-nos, explica, melhor do que as mais engenhosas e subtis dissertações, esta atracção de simpatias.»...                                                                            

                                                                                                         (Continua)