AO SR. AQUILINO RIBEIRO.
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«Dir-se-ia, a um primeiro e superficial exame, que as nossas existências, por seguirem trajectórias diversíssimas, nunca se encontrariam. E, contudo, eis-nos aqui, fraternalmente juntos -- e esta fraternidade não é a de Abel e Caim. -- Porquê? Nenhum de nós fez às suas opiniões o mínimo sacrifício em benefício desta camaradagem. Eu me conservo fiel às convicções em que se educou o meu espírito, e nelas venero um património familiar. O Sr. Aquilino Ribeiro não necessita de que eu venha servir de fiador à constância inquebrantável da sua fé de revolucionário. Hoje, como quando há doze anos, ainda vibrando à decepção dolorosa que a minha juvenil iniciação na política me custara, escrevia Os Teles de Albergaria -- tudo o que em mim raciocina encara as revoluções feitas de baixo para cima como modos iníquos de subverter o que não se sabe corrigir. Fiquei sendo, irredutìvelmente, um partidário da força consciente da inteligência contra a inteligência cega da força. Debalde tenho procurado, nas minhas pesquisas de História, constatar a pseudoverdade de que os benefícios derivantes das revoluções compensam as calamidades que originam. As revoluções, mesmo as mais pacíficas, aparecem-me pululando duma fauna moral aterradora. Para as feras que elas geram, acaba sempre por ser preciso que a Providência crie um beluário... pois que já não descem à terra os Orfeus.
Isto lhe não venho dizer para provocar, no vestíbulo duma obra literária, que eu deveria engalanar de loiros, mirtos e rosas, uma altercação política, mas apenas para patentear a fundamental divergência que, embora fazendo de nós antagonistas (nesta hora dominada, até à exaustão de todos os restantes interesses sociais, pela politica) nos permite a cordialidade indispensável à reunião, aqui, dos nossos nomes.»...
(Continua)