Apesar do Inverno
tecnologia e comportamento, meio ambiente, imaginação, crítica social, natureza
O senso de imaginação foi soterrado pela facilitação tecnológica? Sibélia Zanon* Sair sem celular é pisar em chão instável. Aprendi com Rita Mendonça a importância do chão irregular, do chão que tem textura e relevo para além da lisura do asfalto, do chão que chama a presença do corpo, do chão que se irmana à curvatura dos pés. Sair sem celular é pisar em chão instável. A fotografia deixa de ser o toque do dedo e ganha a forma de palavras que vão se acumulando por dentro, congestionamento de letras. As ruas chamam a presença, pedem para formar imagens, inventar mapas, armazenar referências. Na padaria, vire à direita. Na tumbérgia de flores azuis, vire à esquerda. Stefano Mancuso diz que a maioria de nós não consegue imaginar como 2 ou mais graus de aquecimento global podem afetar a vida. Perdemos a capacidade de criar imagens mentais. O senso de imaginação foi soterrado pela facilitação tecnológica? Sair sem celular é pisar em chão instável. Sem relógio, me resta adivinhar o sol. Volto à concretude do bloco de notas, onde desenho as letras e as raízes desejosas que cruzam a calçada hermética. Na praça, o filho faz das suas mãos uma viseira no rosto da mãe. Luz em demasia cega, não há preparo para tanta claridade. Na casa térrea, um comedouro de dois andares abriga sobras da melancia. O tom róseo, que ainda resta preso à casca, tem o relevo da bicada. Na Amazônia de Sebastião Salgado, vozes indígenas mostram que sabem formar imagens sobre o aquecimento global. Já estão vislumbrando na pele e na raiz. O que pode acontecer com a mandioca?. Foto: Acervo da autora Quando as folhas caem pra fertilizar, o cimento não acolhe. Nem sempre a gentileza encontra morada. Começo o dia acumulando miudezas e termino em vastidão. Na Amazônia de Sebastião Salgado, vozes indígenas mostram que sabem formar imagens sobre o aquecimento global. Já estão vislumbrando na pele e na raiz. O que pode acontecer com a mandioca? Ter raízes capacita a formar imagens. Quem compra a mandioca descascada no saquinho de plástico do sacolão pode se perder das próprias raízes. A vastidão das raízes da sumaúma chama. Já carrego junto o celular, mas continuo pisando em chão instável e aquecido – em demasia – apesar do inverno. Em tempo, há momentos: – Rita Mendonça: pós-graduação “A Natureza que somos, filosofias e práticas para uma atuação genuína no mundo”, A Casa Tombada. – A Planta do Mundo, de Stefano Mancuso – A Amazônia de Sebastião Salgado: Sesc Pompeia até 31.07 Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta e Casca Vazia
Texto originalmente publicado em Revista Fina