Em A Revolução das Plantas, o biólogo italiano Stefano Mancuso articula diferentes áreas do conhecimento através de uma análise peculiar da ecologia

(imagem de capa: o autor Stefano Mancuso)

Bruno Pernambuco

O processo de aclimatação é uma etapa importante da vida das plantas. Sendo um tempo de acolhimento, é simultaneamente uma experiência que demonstra a transitoriedade e a falsidão, que aponta para os deslocamentos, para a mudança de lugar, e para a impossibilidade de conter e limitar um organismo tal como é uma grande rede de plantas, de diferentes espécies.

Em A Revolução das Plantas, o biólogo italiano Stefano Mancuso apresenta um esforço que, mais que de sugerir soluções baseadas nos mecanismos orgânicos como sistemas eficientes, e inspiração para possíveis projetos mecânicos e organizações, é de equiparar em estatuto essas transformações e formas de se adaptar dos vegetais à memória humana. O autor, professor da Universidade de Florença, percorre exemplos da história da biologia, entremeando as histórias com descobertas recentes, resultados de experimentos que revelam aspectos por vezes inusitados, para construir uma imagem densa e detalhada do que são essas adaptações, e das formas como muitas vezes essas construções são ignoradas, tanto na vida corrente quanto nas pesquisas biológicas.

O autor divide a análise das plantas em vários aspectos, diferentes facetas — a imitação, o movimento, a sua relação com as organizações sociais de diferentes espécies — que revelam o valor e a beleza dessas lógicas próprias das plantas em seus mecanismos de adaptação, e aproximam das preocupações humanas. No pensamento de Mancuso, se entrelaçam funções tecnológicas e sociais baseadas nessa observação natural. A revolução anunciada é uma que evoca o passado — a função social dos alimentos e o crescimento dos grãos e das especiarias, através do encontro entre diferentes populações, que se colocam dentro da história social humana, assim como os desenvolvimentos que perpassam milhões de anos, muitas gerações de raízes e de plantas, e um sem fim de mutações, que falam a um outro tempo — para chegar ao futuro, à tecnologia mais refinada, às possibilidades que uma análise que leve em conta esses desenvolvimentos naturais oferece para diferentes campos do conhecimento.

Explorações

Uma das principais aplicações tecnológicas que servem de mote ao livro, o projeto de um robô plantoide para a exploração espacial, desenvolvido, em um concurso organizado pela Agência Espacial Europeia por Mancuso e pela pesquisadora Babara Mazzolai, sugere um sentido contrário ao das imagens correntes da exploração  dos planetas: um dispositivo que promova uma exploração intraterrena, que registre a natureza do solo de um planeta, em vez da imagem da superfície. Além disso, as considerações para o lançamento dessa forma de dispositivo no espaço, a partir do estudo da semente  Erodium Cicutarium, sugerem um modo extremamente eficiente e econômico no que se refere ao gasto de energia.

A inspiração nos organismos vegetais para a produção dessa espécie de dispositivo é um dos principais pontos da análise de Mancuso na obra, sendo retrabalhado, a partir de diferentes aspectos, ao longo do livro. Explorar a utilidade desses mecanismos de sobrevivência aos projetos humanos se torna um modo de reexaminar a inteligência das plantas, de colocar em pé de igualdade essas adaptações às construções racionais elaboradas para esse tipo de pesquisa, e às ideias inspiradas nos processos, bem estudados, que ocorrem entre os animais, por meio da seleção natural.

Este modelo plantoide é, em diferentes passagens, apresentado como exemplo de um contraponto possível; um paradigma de uma lógica que, baseada no estudo dos processos naturais, pode complementar o pensamento corrente nos campos da engenharia, da medicina e de outras ciências aplicadas. A política é também analisada sob esse prisma, e a dualidade dos organismos vegetais, que não podem ser reduzidos a um conceito de “indivíduo” tal como ocorre entre os humanos aí se faz presente, mostrando a riqueza do objeto escolhido por Mancuso para a partir do qual desenvolver seu pensamento. As plantas representam uma unidade, mas uma cujos sistemas de ligação estão muito distantes daquilo que se pode enxergar a partir dos coletivos do mundo animal; um todo que apresenta casos individuais extremamente interessantes, mas que só podem ser compreendidos através de uma ligação muito fecunda, que conecta todas as partes de uma rede.

Na mimese, um processo elementar de sua sobrevivência, e uma das maneiras naturais pelas quais os organismos afastam predadores e buscam posições vantajosas, as plantas espelham a arte da imitação, da representação. Assim, em seu processo evolutivo, refletem as bases do conhecimento científico — tanto da poesia, da pintura, da arte da representação quanto dos experimentos das ciências exatas, que historicamente se baseiam em uma reprodução das condições naturais ou de cenários simulados. Ao falar sobre plantas, Stefano Mancuso percebe estar falando junto de um todo, e assim sua escrita se renova continuamente. Cada exemplo dado no livro, dividido em capítulos concisos, e em seções curtas que dão a cada trecho o caráter de uma anedota, reforça outros aspectos do que foi analisado antes, e alimenta o que virá a ser a aplicação de um pensamento semelhante sobre uma área completamente diferente do conhecimento. A Revolução das Plantas é um relato de uma revolução em andamento, que o faz de um ponto de vista muito particular, e que, através da atenção e do gosto pela beleza dos processos e das descobertas que são narrados, aproveita ao máximo essa posição peculiar.

A Revolução das Plantas Um Novo Modelo para o Futuro

192 pgs.

Ed. Ubu

R$47,92