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Jul22
Maria do Rosário Pedreira
Uma das poucas vantagens dos voos de dez horas é a possibilidade de lermos um livro inteirinho. Fazendo-a de dia, é ainda mais fácil, pois não temos sono e, conscientemente, até preferimos não dormir para acertarmos o horário com o do outro país à chegada. Assim sendo, nesta ida para São Paulo, deliciei-me com Oh, William!, da magnífica Elizabeth Strout, de quem aqui já falei a propósito de outros romances. A escritora norte-americana, que começou a publicar tarde mas devia escrever há muito tempo (pela maturidade com que o faz), pega em personagens centrais (Olive Kitteridge, Lucy Barton...) e fá-las circular de livro para livro, em momentos diferentes das suas vidas, para nos oferecer histórias maravilhosas em que sentimos que falam connosco. Neste Oh, William! regressa Lucy Barton (a mesma de Tudo É Possível e O Meu Nome É Lucy Barton), agora na meia-idade, viúva do segundo marido, a pensar em ser avó e com o pai das filhas (o William do título) deprimidíssimo por ter sido deixado pela terceira mulher (que é bem mais nova do que ele e se fartou das suas idiossincrasias). Mas, não bastando a depressão desse abandono, William descobre que a mãe, pessoa que sempre mitificou, terá tido uma filha antes de começar a viver com o seu pai, que deixou com apenas um ano de idade. Será que essa irmã desconhecida está viva? William quer sabê-lo, claro, mas anda sem coragem para dar o primeiro passo sozinho. Lucy Barton, com quem nunca deixou de se dar bem, irá ajudá-lo numa aventura que se torna mais dela do que dele. Oh, Elizabeth Strout, escreveste mais um grande, grande livro. A tradução, excelente, é de Tânia Ganho.