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Jul22

Maria do Rosário Pedreira

Quando um actor vai na rua, tem dificuldade em caminhar incógnito; mas um escritor pode andar por todo o lado à vontade, que praticamente ninguém o reconhece. Paul Auster disse-me uma vez que circulava pelas ruas de Brooklyn, o seu bairro, sem nunca o abordarem, embora na Europa já muitos leitores o conhecessem. Um dia, em Serralves, uma rapariga parou-me diante de uma pintura para me dizer que um livro meu a tinha ajudado a superar a morte do companheiro, e eu fiquei tão parva que nem queria acreditar. Mas recentemente aconteceu-me uma coisa ainda mais engraçada: parei num semáforo no caminho para a LeYa e fiquei ao lado de um automóvel conduzido por uma mulher que tinha um ar mesmo desempoeirado. Ela fez sinal de que queria dizer-me qualquer coisa, e eu pensei que precisasse de alguma informação sobre a direcção a tomar. Mas não: disse-me que não nos conhecíamos, mas que gostava muito do que eu escrevia e que, na véspera, tinha pensado muito em mim por causa da «tristeza passada a ferro». O sinal ficou verde e só tive tempo de agradecer. A «tristeza passada a ferro» é um verso do meu livro mais recente, de um poema que fala de uma menina a quem fizeram mal. Caramba, nunca me tinha acontecido alguém citar um verso meu no meio do trânsito... Pensei que, como Auster em Brooklyn, aqui eu era uma ilustre desconhecida.