08
Jan26
Maria do Rosário Pedreira
Há muitos livros que tratam das relações nem sempre fáceis entre mães e filhas; e quase de certeza que já falei deste tema aqui no blogue. O primeiro romance que me vem à cabeça é A Pianista, da vencedora do Nobel da Literatura Elfriede Jelinek, que deu origem a um filme homónimo com Isabelle Hupert no papel da filha; e, sem querer puxar muito pela cabeça, ocorre-me também um livro nos antípodas desse, o maravilhoso O Meu Nome É Lucy Barton, de Elizabeth Strout, em que uma filha internada num hospital se surpreende com a visita de uma mãe que não via há séculos, e as duas conversam sobre a separação e o passado. Não sei que tipo de relação tinha Mónica, a filha de Agustina Bessa-Luís, com a mãe, que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que era claramente uma figura forte, dominante, sarcástica, embora também supersticiosa (treze à mesa, nunca!); mas sinceramente entendo mal que, numa entrevista recente, tenha dito que A Sibila, romance creio que de leitura obrigatória no Secundário, é um livro muito difícil e não adequado a «crianças de dezasseis anos». Bem sei que os jovens de hoje são bastante infantilizados pelos pais, mas aos dezasseis anos já não se é criança, caramba; além disso, nós não líamos coisas difíceis (e maravilhosas) no nosso tempo? Acho que nos fez lindamente subir o nível, pois reduzir as leituras dos jovens às obras levezinhas é uma péssima ideia, havendo já demasiadas coisas fáceis nos seus horizontes. Não queremos que cresçam a saber que na vida nem tudo são rosas? Enfim, o que achei mesmo esquisito foi ser a própria filha da escritora a dissuadir a juventude de ler a obra mais emblemática da mãe. Pensem sobre isso o que vos apetecer, eu farei o mesmo.