A ficção é dupla: a narrativa oferecida ao leitor, vencedora de diversos prêmios; e o amor platônico, que só existe na cabeça de quem sofre desta enfermidade

Gustavo Nagib*

A escritora franco-suíça Élisa Shua Dusapin ainda não completou trinta anos, mas já coleciona os prêmios Robert-Walser, Régine-Deforges e o National Book Award com o seu romance de estreia Hiver à Sokcho (“Inverno em Sokcho”). De mãe sul-coreana e pai francês, sua origem se confunde com a de sua primeira protagonista, que nunca saberemos o nome mesmo após as 144 páginas de leitura.

O espaço é muito frio, mas as emoções parecem borbulhar no corpo e na mente da protagonista. Já as relações humanas carecem de tempero, especialmente ao leitor brasileiro. Seu namoro é morno, de sexo indiferente. Sua comida mais parece ser uma promessa do que uma delícia saboreada pelas bocas pouco exigentes dos hóspedes da pensão. A relação com a mãe é sempre um porto-seguro, mas não basta. É preciso de uma paixão carnal que sacie a sede de viver.

A escritora franco-suíça Élisa Shua Dusapin ainda não completou trinta anos, mas já coleciona os prêmios Robert-Walser, Régine-Deforges e o National Book Award. Foto: Reprodução/ Romain Guélat

Vive-se o inverno, a neve, o mercado de peixes voltado para o Mar do Leste e a fronteira supervigiada com a Coreia do Norte. Os olhos devem se contentar com a clássica contemplação do mar: infinito. Onde a felicidade estaria ancorada? A protagonista é a personificação daquela península dividida pela Guerra Fria. Emoções fragmentadas. Conhecemos sua mãe coreana, mas como seria o seu pai francês? E a Europa, o velho sonho distante? Ela tem vergonha de arranhar o francês, mas desconhece o sentimento de exclusão que atinge os estrangeiros assim que proferem seus sotaques em Paris.

O espaço finalmente começa a esquentar com a chegada de Yann Kerrand, o hóspede francês, provavelmente um tipo cool, autor de histórias em quadrinho. O desejo existe. A paixão é inexplicável, porém necessária para conseguir se levantar e arrumar a pensão: quartos, banheiros, cozinha e lavanderia. Mas a efervescência é utópica, e a realidade, invernal. A protagonista precisará descobrir a dificuldade de uma paixão à la française.

Desconhecido familiar

Aquele chove não molha. Parágrafos de uma vida cotidiana ordinária. Quando vamos pegar no sono, de repente, vem uma tempestade de neve. Uma ação poética surpreendente parece redirecionar a narrativa ao inesperado. Mas é sempre assim quando se trata de um amor à primeira vista. Paixão que não existe para além da nossa imaginação. A ficção é dupla: a narrativa oferecida ao leitor, vencedora de diversos prêmios; e o amor platônico, que só existe na cabeça de quem sofre desta enfermidade, do sujeito que passa o dia imaginando aquilo que nunca vai viver.

Cada troca de olhar é uma vibração extra no coração. As mãos ficam suadas ao cruzar com a pessoa idealizada no corredor. Os dias de trabalho mecânico e mal pago até podem ganhar um leve colorido. É preciso despertar cedo, suportar o som infernal do despertador nas manhãs escuras do inverno boreal. Mas tudo será compensado ao cruzar com ele no café da manhã. Mas Yann Kerrand não costuma descer para o café, nem para o jantar, nem demonstra interesse em provar a comida preparada por aquelas mãos apaixonadas e desatentas: deve ser apimentada! A faca escapa, o sangue escorre. Quem se sente atraído pelo prato preparado por uma cozinheira com band-aid no dedo?

A personificação da França em meio ao marasmo daquela pensão tempera o sonho de poder conhecer a Europa. Mas Yann Kerrand não parece muito interessado em compartilhar sonhos. Teria cabeça apenas para os seus desenhos? Ele também parece procurar por algo: tranquilidade ou solidão. Suas emoções estão sintonizadas em outra frequência, mais bem acolhidas pelo inverno de Sokcho. E pouco mobilizadas a corresponder ao desejo de uma protagonista que espia seus desenhos na hora da faxina.

La place rouge de nos deux coeurs

Saem juntos para visitar pontos turísticos. Mas tudo é pouco espontâneo, torna-se impossível compartilhar a mesma mexerica. Ou, então, demasiado tenso, assim como a guerra entre as Coreias, que oficialmente nunca terminou. Os suvenires à disposição serão recordações trágicas de uma nação que teve seu território dividido e nunca mais repousou em uma paz sincera. Interesses de potências que não se interessam por histórias de amor, que só existem na cabeça de quem as sofre.

Finda-se por certificar-se que o desejo não passa de uma grande expectativa depositada em algo ou alguém, cujas chances de sucesso são baixíssimas. Pensamos em tudo aquilo que somos. Sonhamos com tudo o que poderíamos ser. Choramos aquilo que nunca seremos. Mas a realidade sempre finda por estabelecer os limites dos sonhos. Nada é mais poderoso do que a realidade. E ela pode ser extremamente fria em um inverno em Sokcho.

Livro: Hiver em Sokcho

Autora: Elisa Shua Duspain

Editora: Âyine

Preço: R$ 59,00

* é geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)