Nemonte cresce junto da sua tribo, os Waorani, na floresta Amazónica do Equador. Esta é uma das últimas tribos a ser contactada por missionários nos anos 1950s. As coisas complicam-se rapidamente. Os brancos espalham poliomielite pelas tribos, levando à morte e doença de muitos que não têm qualquer tipo de resistência contra a doença. Uma tribo incontactável, que não quer ter qualquer tipo de contacto com a civilização, acaba por matar alguns dos missionários, mas Rachel, irmã de um dos mortos, decide voltar para os perdoar e tentar convencê-los a acreditar em Deus.

Desde que Nemonte é pequena, Rachel é uma personagem muito presente. Dá-lhe um nome cristão — Inés. Tenta convencer a sua família a ir à igreja a troco de roupa e medicamentos. Uma relação puramente transacional.

Até que chega o dia em que Rachel faz chegar à tribo um helicóptero com os donos de uma companhia de petróleo.

my family called me Nemonte - my true name, meaning “many stars.” And another world, where the white people watched us from the sky, the devil’s heart is black, there was something named an “oil company”, and the evangelicals called me Inés.

Na adolescência, Nemonte acaba por decidir deixar a família e ir viver com os missionários, onde vai passar por muito, incluindo abuso sexual por parte de um dos supostos “crentes em Deus”. Torna-se, ela própria, missionária em Quito.

Anos mais tarde, as companhias petrolíferas querem destruir a floresta onde Nemonte cresceu, poluem os rios, tentam obrigar pessoas que não sabem ler a assinar documentos dando-lhes as suas terras, assustam os animais. É aí que Nemonte decide regressar à floresta, não como missionária, mas como activista, lutando, não só pela floresta, mas também pela história de todas as tribos que nela vivem e que é, todos os dias, apagada por missionários a favor “da palavra de Deus.”

Nemonte junta-se com pessoas de várias tribos e com ativistas para contestar o leilão do governo de uma porção da Amazónia equatorial a companhias petrolíferas. Juntos, passam dois anos a fazer o mapeamento das terras manualmente, a tirar imagens com drones, a ouvir histórias de quem perdeu filhos por causa do peixe dos rios poluídos com petróleo. Quando o julgamento chega, estão preparados para provar que a floresta tem vida, famílias, animais selvagens, história e que, mesmo que seja difícil entendermos estas histórias, elas não são menos válidas do que as nossas. Um livraço, portanto.

people’s stories are what kept the rainforest alive. And that if the Waorani people lose their stories, then the forest will fall to the oil companies.

A história é longa, são quase 400 páginas, mas cada capítulo merece leitura e reflexão. Até que ponto temos o direito de impingir as nossas crenças aos outros? Até que ponto podemos afirmar que uma criança nascida na dita civilização é mais feliz do que uma criança nascida na floresta, rodeada de animais e de plantas, mas sem acesso à educação e cuidados de saúde (muitas vezes, providenciados por missionários a troco da crença em Deus)?

Uma história incrível que merece ser lida por todos. Infelizmente, “We will be jaguars”, que também tem o título “We will not be saved”, não está traduzido em Portugal, mas encontram facilmente, em ebook, a versão em inglês.