A minha curiosidade em ler estes livros surgiu depois de ouvir Micheliny Verunschk e Gabriela Wiener falarem sobre eles no Fólio, em outubro passado.

Estes são daqueles livros que não se esquecem, que nos revoltam e nos fazem repensar temas como o colonialismo.


O som do rugido da onça de Micheliny Verunschk

Em 1817, dois cientistas alemães chamados Spix e Martius desembarcaram no Brasil com a missão de registar as suas impressões sobre a fauna e a flora do país. Pelo meio, decidiram que deveriam levar também de volta para Munique um menino e uma menina indígenas para os poderem estudar e, no fundo, civilizar. Claro que estas crianças não falavam inglês, muito menos alemão e, infelizmente, acabaram por morrer pouco tempo depois de chegarem a Munique. Mesmo depois de mortas, continuaram a ser estudadas. A cabeça de uma das crianças foi cortada e preservada em formol...

A autora, Micheliny, já conhecia a história dos cientistas, mas ficou surpreendida quando percebeu que ninguém contava a história destas crianças. Durante a conversa no Fólio, ela falou sobre como foi a um festival na Alemanha falar sobre o livro e como as pessoas enalteciam o importante trabalho dos cientistas Spix e Martius. Mas este livro não é sobre eles. É sobre as histórias que não entram na História, neste caso, de duas crianças indígenas raptadas por dois cientistas alemães para serem estudadas.

No livro, a história é contada pelo ponto de vista das crianças e é entrelaçada com a história de Josefa, uma jovem no Brasil dos dias de hoje, que enfrenta as lacunas da sua própria história quando vislumbra uma menina numa exposição. A história desta personagem parece-me ser baseada na própria autora. A avó dela costumava dizer-lhe que tinham ancestrais indígenas, mas quando a avó morreu e ela perguntou ao resto da família, ninguém sabia do que ela estava a falar. Ou seja, quando estas histórias não são passadas de geração em geração, perdem-se...

Outra coisa que aprendi na conversa do Fólio e que desconhecia completamente foi que, em 1758, o Marquês de Pombal proibiu o uso e o ensino da língua tupi (uma língua que era falada pelos povos tupi antes da chegada dos portugueses) no Brasil, instituindo o português como a única língua oficial com o objetivo de “civilizar” as populações indígenas.

Micheliny escreve muito bem, mas confesso que houve momentos em que foi difícil acompanhar este livro, porque a autora fez muita pesquisa sobre os vários povos indígenas do Brasil e consegue misturar o passado, o presente e o futuro num mesmo livro (seja a pandemia, o rapto das crianças, o genocídio de povos indígenas). O som do rugido da onça é uma referência à mitologia indígena que considera a onça pintada como um símbolo da vida.

É um livro notável e, de certa forma, inacreditável, mas tudo isto aconteceu...


Retrato Huanco de Gabriela Wiener

Este livro começa assim:

O mais estranho de estar sozinha aqui, em Paris, na sala de um museu etnográgico, quase debaixo da Torre Eiffel, é pensar que todas aquelas estatuetas parecidas comigo foram arrancadas do património cultural do meu país por um homem com quem partilho o apelido (o historiador austríaco Charles Wiener).

(...)

Um trisavô é apenas um vestígio na vida de alguém, mas não neste caso porque este homem levou para a Europa o tesouro de quatro mil peças pré-colombianas.

Retrato Huaco é o nome dado a peças de cerâmica que representavam rostos indígenas e, dizia-se, capturavam as suas almas.

Neste livro, Gabriela funde a história da sua família com a colonização de um continente. É um livro que aborda muitos temas, mas não senti que se tornasse confuso. Além da história da família da autora e da sua ligação ao historiador Charles Wiener, o livro começa com a morte do pai da autora no presente e com a família poliamorosa que mantém em Madrid, onde vive.

Gabriela vai lendo o livro escrito por Charles Wiener na sua exploração do Peru, ao mesmo tempo que vai lendo os e-mails que o pai escrevia para a sua amante de há muitos anos e vai explorando quem é com toda esta história a fazer parte da sua.

A certa altura na leitura do livro de Charles Wiener, Gabriela descobre que, durante as suas explorações, ele decidiu comprar uma criança indígena e levá-la para França:

«Desde então», escreveu o meu trisavô no seu diário de viagem, «acompanho com atenção o desenvolvimento moral e intelectual da criança, que agora compreende a língua francesa e se faz compreender. É muito inteligente e aquilo a que se costuma chamar bem-educado. Deu-me a prova de que esta raça, para progredir, precisava somente do exemplo e do ensino.»


Estes livros têm claras semelhanças. Em ambos, temos crianças indígenas roubadas e levadas para a Europa.

Dois livros que, sendo bastante diferentes na forma (o «Retrato Huaco» é autobiográfico e «O som do rugido da onça» é um livro de ficção), se complementam bastante nas ideias em relação à colonização e à forma como vemos o outro.