Quando eu tinha lá meus 10 anos achava muito curioso o fascínio de meu pai com filmes de ação. Ele é da geração que adorava Van Damme, Stallone, Schwarzenegger. Eu absorvi parte disso, claro, mas nem criança nem adulto consegui replicar aquela intensidade com que ele via um filme desse pessoal.
Era ritual padrão da família. Aos domingos, TV ligada e filme na telinha de nossa tv pequena, mas adquirida com muito esforço e orgulho.
A narrativa que transcorria na tela nunca tinha nada de muito extraordinário ou diferente do de sempre. São filmes de ação: herói lascado, superação, vingança, quebra tudo, mostra que é bom e show! Isso pra qualquer ser humano normal, não para meu pai. Dotado de uma sensibilidade estética especialmente apurada pra esse tipo de filme, ele acompanhava atentamente o declínio e posterior escalada do herói. Sofria com Van Damme ao ver seu amigo ser quebrado pelo chinês. Caía na lona com Rocky e escondia-se na lama com Schwarzenegger. Os olhos atentos acompanhavam cada passo como se fosse o próprio personagem.
O melhor, porém, ainda estava por vir. Quando o filme caminhava para o terceiro ato, quando a decadência do herói já se dissipara e vislumbrava-se o brilho do sol, prestes a irradiar em sua glória, meu pai desatinava num choro compulsivo que era difícil de diferenciar de uma risada. Ele ria com a cara toda enrugada, olhos fechados e lágrimas escorrendo. A gente sabia que não era um choro de dor, mas de alegria e emoção. E sabia também que era por causa do filme.
Criança, zombava dele, ria daquela cena: um sujeito que ri e chora ao mesmo tempo enquanto Van Damme socava os testículos do vilão. Adulto, o hábito de meu pai é só memória enquanto vejo o riso solto de meu filho com uma cena boba qualquer no seu desenho favorito. Um personagem imita uma hiena, uiva, ele solta uma gargalhada intensa e olha pra mim comentando que aquilo é muito engraçado.
Separados por uma geração, há duas experiências catárticas que despertam inveja. A facilidade com que meu filho entra naquela história a ponto de gargalhar, a naturalidade de meu pai misturando riso e choro, são difíceis de alcançar. Crescemos, estudamos, aprendemos as estruturas narrativas, o modo de construção das ficções, só pra ficar chato e perder a fruição. Ou não…
Verdade que é difícil encontrar algo que me agrade, algo que desperte aquela imersão da criança e do velho em mim. Em compensação, quando encontro um ponto de sensibilidade, a emoção vem como um tufão, capaz de causar tanto impacto que dificilmente será esquecido.
Muitos já sabem como eu gosto de videogames. Depois da literatura, é minha principal mídia para aproveitar narrativas. Adoro jogos, principalmente aqueles feitos com profundidade, pensados para ser aproveitados sozinhos, em cada detalhe de um mundo ficcional.
Estava eu terminando Death Stranding 2, caminhando justamente para o terceiro ato, quando sem perceber fui dominado pelos espírito de meu pai. Enquanto meu pai ria com o movimento elaborado de Van Damme, eu ria com uma batalha de riffs de guitarra com Mechas gigantes ao fundo… enquanto ele chorava pela superação de um herói quebrado vingando seu amigo, eu chorava pela jornada de um pai em busca de seu filho. Eu ria xingando Kojima, o diretor do jogo, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto. Nunca havia replicado com tanta precisão a reação de meu pai e nem notei isso, até que a cena acabou e eu ainda ria e chorava… congelei no tempo como um personagem de videogame. Olhei pra mim mesmo de fora de meu corpo e vi finalmente: eu sou meu pai.
Aquilo que a ciência chama de gene é um traço permanente que está nele, veio parar em mim e que eu transmiti para meu filho. No futuro, provavelmente meu moleque também denunciará a sua origem enquanto gargalha regado a lágrimas. Pequenos gestos e comportamentos que indicam nossa permanência, mesmo quando não estivermos mais aqui.
A mesma permanência que terá um jogo como o de Kojima e a mesma permanência que terá um clássico qualquer que você imaginar: Shakespeare, Thomas Mann, Charles Dickens, Tolstói.
Como o choro de meu pai, que perpetuou-se em mim contra minha vontade, um clássico não depende da vontade de ninguém pra se perpetuar. Ele é e permanece numa força que muitos chamam de natureza e eu prefiro chamar de Deus.

