(ilustração de Alexeieff)
Dizem que havia um homem que buscava a Sabedoria Imortal, e para isto pôs-se a caminho pelas estradas do Oriente.
Tinha certeza de que em algum lugar do mundo haveria um conjunto de crenças e saberes capaz de responder a todas as perguntas passadas e futuras da humanidade.
Um dia chegou ao pé de uma montanha altíssima, tão alta que mal se avistava o seu pico, por entre as nuvens. Era uma montanha escarpada, áspera, íngreme, batida por vendavais. No sopé, uma estrada subia por entre as pedras, e, bloqueando a passagem, um portão de ferro cheio de grades e correntes. Ao lado do portão havia um guarda armado.
“O que há lá no alto, que foi necessário colocar este portão aqui?” perguntou o viajante.
“Não há nada”, retrucou o guarda.
“Claro que há alguma coisa”, insistiu ele, “senão, para que o portão? E para que tu mesmo, aqui, de sentinela?”
“Me pagam para isto, e tenho família para sustentar”, tornou o guarda, e prosseguiu. “É um trabalho sem sentido, como aliás qualquer outro. Mas lá em cima não há nada. Dizem, aliás, que uma vez, antes que eu viesse ocupar este posto, um homem aproveitou uma distração do guarda e, pegando um pedaço de pau, derrubou-o no chão, desacordado. Pulou sobre o portão e subiu a montanha. A subida foi muito mais trabalhosa do que ele tinha imaginado; foi vítima do ataque de aves de rapina, enfrentou vendavais e nevascas, quase morreu de fome, depois quase morreu de frio, depois quase morreu de cansaço. Um dia chegou ao alto da montanha. E não havia nada lá.
“Assim são todos os homens (continuou o guarda). São ávidos de segredos, de sabedoria transcendental. Ao se deparar com uma Sociedade Secreta, pressentem a possibilidade de que exista ali essa Sabedoria Oculta, mas ao mesmo tempo sabem que talvez tudo não passe de um engodo. A única maneira de saber é dedicar uma vida inteira a isso; mas ai, quando se está no fim da vida percebe-se que não havia segredo nenhum, e que mais valia ter dedicado a vida a outra coisa."
O viajante ficou pensativo durante alguns minutos, sentou-se sobre uma pedra, descansou. A certa altura, aproveitou uma distração do guarda e, pegando um pedaço de pau, derrubou-o no chão, desacordado. Pulou sobre o portão e subiu a montanha.
A subida foi muito mais trabalhosa do que ele tinha imaginado; foi vítima do ataque de aves de rapina, enfrentou vendavais e nevascas, quase morreu de fome, depois quase morreu de frio, depois quase morreu de cansaço.
Um dia chegou ao alto da montanha. E não havia nada lá.
Assim são todos os homens. São ávidos de segredos, de sabedoria transcendental. Ao se deparar com uma Sociedade Secreta, pressentem a possibilidade de que exista ali essa Sabedoria Oculta, mas ao mesmo tempo sabem que talvez tudo não passe de um engodo. A única maneira de saber é dedicar uma vida inteira a isso; mas ai, quando se está no fim da vida percebe-se que não havia segredo nenhum, e que mais valia ter dedicado a vida a outra coisa.
1947) Uma lenda antiga (5.6.2009)
filosofia, existencialismo, busca pela verdade, contos, absurdo
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
