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| Fotografia da minha autoria |
«Um thriller real e assustador como poucos»
A vida desenrola-se à nossa frente, como se fosse uma fita de cinema, mas há detalhes que nos escapam. Ou porque os nossos pensamentos divagam por outra direção ou porque existe um filtro que nos impede de captar a verdade dos momentos e, até, das pessoas. E, quando tendemos a correr para conquistar um cenário idílico, o nosso discernimento apresenta ainda mais dificuldades para desconstruir determinada imagem. Porque as aparências assumem um peso gritante, desvirtuando o nosso sentido crítico, tal como se verifica no livro de B. A. Paris.
«Na semana seguinte, no dia em que a banda estava a tocar no
parque, só vi o Jack quando ele se aproximou do local...» [p:28]
Ao Fechar a Porta é um thriller psicológico bastante inquietante e revoltante, atingindo níveis doentios. Sem apresentar componentes gráficas, tem a capacidade de nos perturbar, fazendo-nos questionar a nossa reação perante uma situação semelhante. Assim como o nome permite antever, compreendemos que é dentro de casa que algo de muito errado acontece. Mas, no exterior, a fachada manifesta-se imaculada, um autêntico sonho. E esta realidade antagónica desconcerta-nos, pois parece impossível que alguém consiga enganar tanto e, pior, durante tanto tempo. Em simultâneo, estes aspetos são assustadores porque demonstram o quanto nos deslumbramos com o conceito de perfeição, ao ponto de normalizarmos atitudes suspeitas. Ficamos num estado de cegueira tal, que, depois, pode ser demasiado tarde para reagirmos.
«Assim que saio do carro ela corre para mim,
os olhos cheios de lágrimas de alívio» [p:41]
A narrativa alterna entre o presente e o passado, de uma forma muito coesa. Portanto, nesta transição constante, é percetível, por um lado, a vulnerabilidade humana e, por outro, a manipulação e a psicopatia a conquistarem espaço. No entanto, sinto que existem algumas lacunas em certas partes da ação. Embora haja muita credibilidade no enredo, acredito que há um conjunto de circunstâncias que poderiam ter um maior impacto, caso fossem mais aprofundadas. O ritmo é alucinante, marcado por extremos de violência psicológica, mas perde fulgor por carecer de contexto. Apesar disso, por nunca sabermos qual o passo seguinte, somos impelidos a continuar, para descobrirmos o desfecho.
«A única coisa que me restava fazer era enganá-lo, fazê-lo
acreditar que tinha cedido, que tinha desistido» [p:106]
No meio do caos de uma relação amorosa tóxica, não deixa de ser surpreendente - e calmante - que exista um elo familiar a contrapor esse cenário, funcionando mesmo como um sinal de esperança. Deste modo, para além de ter um lado claustrofóbico, esta história também se move pelo amor e pela necessidade de proteger quem se ama. Confesso que houve momentos em que questionei as decisões da protagonista, atendendo a que parecia prejudicar-se de propósito. Contudo, em situações de pânico, não estamos, propriamente, lúcidos. Aliás, quando o cerco aperta, a nossa agilidade mental ressente-se e não podemos garantir que não cometeríamos os mesmos erros. Por isso, analisar os contornos sem carregarmos as feridas descritas será sempre injusto.
«- Sabes, nunca questionei a pessoa que sou
- diz-me ele, pensativo» [p:159]
Ao Fechar a Porta é um livro desafiante, transportando-nos por acontecimentos de tensão e pelo lado mais sombrio do ser humano. Porém, também é marcado por momentos de coragem e de superação. Com uma escrita muito relacional, a autora permite-nos refletir sobre o quanto desvalorizamos a nossa liberdade - dando-a por garantida - e questionar se conhecemos, verdadeiramente, as pessoas que nos rodeiam. Porque esta narrativa podia pertencer à casa ao lado e, sem sabermos a dinâmica do seu interior, podemos estar longe de imaginar que aquilo que aparenta ser um conto de fadas é, afinal, uma história de terror.
«E, de repente, obtive a resposta para o meu problema» [p:225]
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