Fotografia da minha autoria

«Terá força para interromper o ciclo?»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Violação, Negligência, 

Cenas Explícitas, Menção a Suicídio e Morte

A transparência do ser humano, no que à sua essência diz respeito, devia de ser uma exigência intrínseca, porque não há nada mais desonesto do que iludirmos os outros, sobretudo, quando lhes mostramos uma versão utópica, que esconde o quanto os podemos magoar. Além disso, o reconhecer de padrões dilacera-nos. E ler este livro de Colleen Hoover mostra-nos que nem sempre é fácil quebrá-los, pelos mais diversos motivos.

CICLOS QUE SE REPETEM

Isto Acaba Aqui sustenta-se num histórico familiar real, revelando-se um constante murro no estômago e um exercício extraordinário de empatia, porque é simples acharmos que, perante determinadas situações, teríamos força e discernimento suficientes para escrevermos um desfecho diferente; porque é fácil analisarmos as situações do nosso ponto de vista confortável e hipotético. No entanto, cairmos nos mesmos paradigmas, vermos os mesmos ciclos a repetirem-se é bastante frequente. E ninguém está livre de o experienciar.

«Sorrio, tão entristecida quanto confundida por aquele tipo. 

Não me parece que alguma vez tenha estado com alguém como ele...»

A narrativa assume um tom leve, mas confronta-nos com temas pesados, que não podemos ignorar. E a verdade é que somos inebriados pelo charme do protagonista, para, depois, o nosso coração ficar destroçado, porque torna-se fonte da maior parte dos problemas. Por outro lado, a figura feminina abre uma porta intrigante e necessária, visto que, com humor e credibilidade, reforça que onde há amor, há vontade de justificar comportamentos; e que, por consequência, é difícil reconhecer o traço sombrio de quem temos ao nosso lado.

«Foi por isso que vim para aqui. Gosto de ti, 

mas não estou preparado para morrer por tua causa»

Pelas características das personagens e pelo rumo que a história leva, é evidente que a vida não é preto no branco, que existem muitas áreas turvas, que vamos desbravando com precaução e com muitas hesitações.

LINHAS TEMPORAIS PARALELAS

Um dos aspetos mais fascinantes desta obra, para mim, prende-se com a existência de duas linhas temporais - passado e presente - e a forma como se interligam, permitindo-nos juntar factos e reconhecer que há um tom transversal entre ambas, pela reprodução de violência, pela procura de perdão. Além disso, não há qualquer tipo de romantização naquele que é o tema central do enredo e isso é, também, o que tem de mais valioso.

«Mas depois sentir-me-eu melhor. É apenas a natureza humana, 

sarar uma velha ferida para se preparar a vinda de uma nova camada»

Isto Acaba Aqui chama-nos para o lado das vítimas de violência doméstica, sem julgamentos, porque nunca é intuitivo insurgirmo-nos contra quem amamos, virando-lhe as costas, ainda que nos maltrate sistematicamente. No meio da fragilidade, percebemos que a resiliência assume muitas camadas e que há quem permaneça nos bastidores, incentivando a nossa libertação. E a nota da autora contextualiza melhor o rumo desta narrativa.

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