Fotografia da minha autoria

«(...) denso e leve, violento e poético»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto, Bullying, Violação, Referência a Suicídio

As palavras parecem escassas para falar sobre a magnitude da obra de Aline Bei: tão pequena em tamanho e tão grande na essência. Isto porque há livros que nos doem e este é um exemplo perfeito dessa realidade.

UMA HISTÓRIA SOBRE PERDA

O Peso do Pássaro Morto narra a história de uma menina-mulher, dos oito aos 52 anos, cuja vida é amplamente marcada por situações de perda, de violência e de mágoa. No entanto, procura que a sua jornada não seja apenas sustentada neste ambiente desolador. Confesso que não estava nada preparada para um início tão intenso, com uma escrita peculiar, mas desarmou-me por completo - e marcou todo o ritmo da leitura.

«Chorei pensando que chorar assim deve

desmanchar o rosto da gente»

Fui avançando sempre apreensiva, atendendo a que paira uma certa instabilidade na trajetória da protagonista; atendendo a que permanece a sensação de a mesma não ter vivo, só sobrevivido a todos os contratempos. Em simultâneo, senti o peso da angústia, do fim, do caos e dos destroços emocionais, por ser um relato muito próximo, na primeira pessoa. Construído com frases curtas, num tom poético e íntimo, quase como se lhe faltasse o fôlego, a autora expõe tudo aquilo que necessitamos para compreender o contexto e o seu desnorte.

«além do nosso silêncio de sempre, eu já estava

acostumada,

mas não com essa coisa

brotando no peito parecido com

saudade só que menos,

era o feto

da saudade,

muito magro ainda, mas

com vida»

Este livro, por retratar temas como o bullying, a maternidade, o abuso sexual e a fragilidade do ser humano, é bastante triste e pesado; e, creio, será difícil ficarmos indiferentes à ação e à mensagem presente nas entrelinhas, porque é feito de honestidade e vulnerabilidade. E porque, ainda que atinja um extremo de dor, poderia ser a nossa história. Portanto, num permanente exercício de empatia, acabamos por refletir sobre os acontecimentos que nos marcam para sempre, influenciando o nosso futuro e as ligações que construímos.

«e desde que estamos juntos, parece que alguém

acelerou os relógios do mundo, penso que isso

é Amor»

No meio de tanto sofrimento, O Peso do Pássaro Morto consegue, por outro lado, ser uma narrativa de uma beleza singular, com apontamentos de esperança. Embora sejam mais os momentos dilacerantes, percebemos a importância de nos ancorarmos aos mais subtis pontos de luz e de abraçarmos um papel de cuidador.