A autora e editora Aline Bei/Reprodução Cia. Das Letras

Repetindo o esmero com a linguagem, Aline Bei constrói narrativa que ressoa o sucesso de O Peso do Pássaro Morto.

André Vieira

Iluminados por uma luz artificial que atravessa o espelho, cruzamos o olhar com o reflexo. Alguns segundos contemplando a imagem e, o que enxergarmos? Como uma foto 3×4 sobreposta a de nossos descendentes, em uma cabine de fotografias ou espalhada em uma mesa entre outros clientes sonolentos, a frase típica para puxar assunto não demora a sair da boca do fotógrafo desocupado: “você me lembra alguém”, “como você é a cara do pai!” ou “você é o xerox da sua mãe!”. A foto, contudo, conta mais do que mera semelhança física dos genitores, ela é a representação de tudo aquilo do que fomos até ali.                  /

Das alegrias nos olhos às rugas recém-cultivadas no rosto, a forma com que lidamos como a vida, especialmente em sessões inflacionadas para tirar foto do RG, se materializa nos gestos e feições que reproduzimos dia a dia e no olhar que possuímos do mundo ao nosso redor. Em a Pequena Coreografia do Adeus (Cia. das Letras, 2021), Aline Bei, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 com O Peso do Pássaro Morto (Editora Nós, 2018), tece um romance-relato que problematiza as relações familiares como início e norte no florescer de uma pessoa, sobretudo através da relação umbilical mãe-filha.                                                                                                                  

 A partir dos olhos de Júlia Terra, Bei narra a história de uma menina frágil com “[..]as pernas/ magríssimas, os joelhos/ ossudos tentando/ se esconder” que entre uma infância marcada pelo rigor do couro e a aspereza de palavras pontiagudas, busca um lugar na casa onde o verbo amar não seja apenas pretexto de uma vida plangente. Símbolo da família despedaçada “Lá somos três solitários/ Irreversíveis/ Gravemente feridos/ Da guerra que travamos contra nós”, a sina da menina toma outros contornos quando Júlia se reaproxima da figura pai no pós-casamento ou encontra no Balé uma saída para o inferno que pendura na casa da sua mãe.                                                                             

 Desiludida no lar, tornar-se uma figura como sua professora de balé — conhecida apenas como Madame —, vira uma obsessão à menina. Leve, confiante e porta-voz de uma arte internacional, a maîtresse expande o tatame e amplia o mundo de Júlia, a ponto da prática se tornar a única devoção da protagonista, por mais desajeitado fosse seu corpo nas performances de palco “A aura de Madame emanava/ um certo tom metafísico/ que despertava em mim/ o Desejo/ de ser/ a mentira de seus olhos”. Já ao lado do pai — cujo nome só revelado na segunda parte do livro —, Júlia se vê cindida entre atenção da figura paterna e “a máscara do homem mais jovem que imaginou/ pra si”. Um misto de confidente distante e companheiro dos momentos alegres e silenciosos de pedaços pizzas.        

Entrelaçando uma linguagem poética com recursos do mundo teatro, do romance e da escrita — ao abismo da autoficção —, Bei esmiúça o que “chama de carma ou: carregar uma pedra involuntária no coração” na vida de diversas filhas — e filhos — de mães devastadas pelas pequenas violências acumuladas. Falta de perspectiva profissional, casamentos fracassados, infâncias arruinadas, a hereditariedade da crueldade sempre faz ecoa aos mais fracos, indefesos. 

Dividido em três atos, a Pequena Coreografia do Adeus descreve o percurso de alguém que faz de tudo para superar a infância, cortar as raízes que lhe deram vigor, e buscar uma terra sua para chamar de lar e reescrever sua história. Talvez à alusão a um pássaro que cria suas penas no ar, durante o voo. No entanto, assim como nos diários que Júlia escreve quando cresce e sai de casa, trata-se de um passarinho amaldiçoado. Uma ave condenada a perpassar pelas mesmas experiências de seus genitores e amargar com o retorno aos mesmos dias da infância: amores cativos ao próprio tempo, emoldurados em nossos rostos em mistura de vida e corte.                                                

Em tempo, não é da natureza do pássaro viver em gaiolas. Júlias, Alines e Eds (personagem do diário da protagonista) acreditam que não é porque trilhamos caminhos sombrios, habitados pela falta e ornamentados pela culpa, que não pode haver a luz dos desconhecidos, dos amigos e do sorriso próprio no espelho. Se Louise Bourgeois, autora da obra États Modifiés (Centre Pompidou, 1992), reproduzida como capa do livro, crê no arco histérico entre mãe e filho, evocando uma relação inequívoca de “I have a mother or I am a mother” (eu tenho uma mãe ou eu sou uma mãe). Bei acredita na redenção com seu próprio passado, principalmente quando ele pode ser ressignificado: “Pela rua de estátuas que/ engraçado/ não pareciam mais melancólicas. de repente elas/ ganharam contornos angelicais”

Pequena Coreografia do Adeus

Aline Bei

Cia. Das Letras/2021

R$ 49,90/ 29,90

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira