02
Mai22
Maria do Rosário Pedreira
Estou a ler várias coisas, algumas no trabalho, outras em casa. Mas, como ia viajar e não queria ir demasiado carregada, levei o mais recente livro de Leïla Slimani publicado em Portugal, com tradução de Isabel Castro Silva, intitulado O Perfume das Flores à Noite. Não é, como os seus livros anteriores, uma ficção, mas sim um texto autobiográfico sobre a necessidade de o escritor se encerrar (a disciplina de fugir da vida, dos encontros, dos amigos, é profundamente necessária a quem quer, de facto, tornar-se escritor); e, ao mesmo tempo, a experiência que a autora aceitou de, durante uma noite, ficar fechada num museu em Veneza (claro que lá estava o guarda da noite, mas isso não conta), onde pode circular livremente por todas as salas ou apenas dormir numa caminha de campanha que alguém lá pôs. Lemos, pois, o resultado das suas deambulações e pensamentos durante esse período (muitos dos quais reminiscências das suas leituras, e também aqui é impressionante ver a bagagem literária de uma escritora ainda jovem como Slimani). Gostei especialmente da parte em que prevarica e quase mete a cabeça na retrete para dar umas passas num cigarro evitando os alarmes do museu, mas ainda me falta um terço para chegar ao final. O perfume das flores à noite prende-se com uma memória de adolescência associada à ideia de liberdade, que não é o contrário de encerramento, embora possa parecer. Vale bem a pena ler.