A poesia de ‘Potlatch’ estrutura-se de tal forma que transmite aquilo que é evocado no poema Batistérios do Amor Incógnito, dedicado ao poeta Leonardo Fróes: “que a linha reta seja sempre falsa medida”.
Bruno Pernambuco
“Ao despertar eu expelia versos”, escreve Guilherme Gontijo Flores no verso final de “Suspenso”, poema do livro Potlatch. Essa é a força do verso, que não é propriamente escrito, mas expelido, projetado ao mundo, e assim mistura presente e passado, acolhe em si o gérmen da história, da linhagem, tangencia, numa transversal, a progressão retilínea do tempo.
O livro, recém-lançado pela editora Todavia, é uma obra que atravessa essa linha da história. Tomando como signo, como declaração de sua poesia, o ritual de povos indígenas da América do Norte, é uma obra que apreende o significado das riquezas materiais dentro de um processo, que enxerga sua consumação. É um livro sob o domínio da palavra e da lírica, e que deliberadamente usa dessas técnicas para observar a ruína, o vazio, o espaço entremeado- “mesmo que a terra e o ar/intercalados entre as plantas/do jardim/ou a água intercalada entre os peixes/do tanque/ não seja planta nem peixe,/ainda assim contém/ algo/ deles”, escreve o poeta em Tout est plein dans le nature.
Desde Cassandra, a voz da história é personificada nas mulheres. Cabe ao olhar masculino, assim, a observação das ruínas, dos locais abandonados, a percepção daquilo que restou após a cerimônia de destruição das riquezas. Entretanto, há também uma força vital que se afirma dentro do conjunto dos poemas de Potlatch. É uma forma pela qual, no todo da obra animado, tornado vivo pela interação entre os poemas, se faz representada, além do resultado, da destruição dos objetos valiosos, a tensão da disputa que marca a cerimônia chinook.
Contrastes
Esta força de movimento que está presente na obra por vezes se faz representada dentro de um poema individual. Vê-se um exemplo disso na forma como é construído Minas, poema da segunda parte do livro, intitulada Colheita Estranha: sua primeira seção descreve a aproximação de um pé que anda por um campo até disparar uma mina terrestre, de tal maneira, concreta, e encerrada na descrição dessa imagem, que evoca o horror da guerra contemporânea, e a permanência desses artefatos no solo de países subdesenvolvidos, após conflitos nas últimas décadas. A parte seguinte do poema, entretanto, ainda partindo da mesma imagem, é elaborada de tal forma que sugere uma possibilidade de vida, de acepção do título do poema como construção de um engenho interior.
Em Dez Imagens da Vaquejada, outro poema construído a partir de fragmentos, de seções que contém cada uma apenas quatro linhas, a derradeira chegada a uma aldeia, e o reencontro com o espaço, é uma conclusão que reafirma a individuação do sujeito, num relato emocionado, após o encontro e a captura de um boi que exprime uma força selvagem (“com tudo empenho capturá-lo boi/boi intratável e forte e feroz”, escreve o poeta).
Esta afirmação da vida está presente em diferentes momentos de Potlatch em que sâo evocadas cerimônias tradicionais, e outras formas de ritos, de diferentes culturas, e é elaborada de diferentes formas nesses outros momentos. Wera, o poema de abertura do livro, construído a partir de traduções de cantos do povo Xona, inverte, na imagem do acolhimento entre os antepassados finados de um membro recém-morto da tribo, o sentido do título da primeira seção da obra, “A Parte da Perda”. A perda torna-se presença, seja naquilo que é revelado pelo espaço vazio, seja na reconstrução positiva, na reelaboração da ausência.
Reelaboração
Potlatch, o poema-título, último do livro, aponta para uma nova elaboração dos sentidos da presença e da ausência,ecoando a abertura de Wera, em que o acolhimento entre os mortos se torna valor positivo, a destruição dos objetos se torna criação, materialização de algo. Os dons são desfeitos num contradom, que assume seu lugar.
Esse é o movimento central do livro, que define muitas das construções elaboradas em Potlatch. Mais que um livro criado na sombra, a obra se estabelece como uma construção do ar, um exercício de escultura que se enriquece com danos ao seu material, com a perda daquilo que foi planejado originalmente. É possível ver a escrita de Guilherme Gontijo Flores não como um exercício de imaginação de paisagens, necessariamente, mas como uma construção de janelas que capturam momentos privilegiados, estabelecendo uma cena. Está no exercício de elaboração dessas molduras o trabalho de ser outro que assume o poeta.
As medidas, da racionalidade, e do tempo progressivo, são alteradas, também, nesse processo. Poemas como Wera e Potlatch, invocações de cantos, recuperam um tempo circular, uma criação que nasce a partir da repetição. Em um poema como Dez Imagens da Vaquejada, por exemplo, o olhar do autor se move de tal modo que não se contém por essa suposta linearidade do tempo. A poesia de Potlatch, afinal, estrutura-se de tal forma que transmite aquilo que é evocado no poema Batistérios do Amor Incógnito, dedicado ao poeta Leonardo Fróes: “que a linha reta seja sempre falsa medida”.
Potlatch
Guilherme Gontijo Flores
Ed. Todavia
126 pp.
R$ 59,90