O que faço é estar aberto, atento aos poemas (…). Poema nasce fazendo.

Bruno Pernambuco

Com o lançamento de Potlatch pela Editora Todavia, Guilherme Gontijo Flores, poeta, tradutor e professor de latim na UFPR, dá continuidade a uma obra poética que é das mais originais dentro da produção brasileira contemporânea.

Em conversa com a Fina, o autor de obras como carvão::capim e História de Joia comenta o lançamento, discutindo movimentos elaborados no livro e aspectos de seu processo criativo.

FINA: O que, dos seus lançamentos anteriores, você sente que trouxe pra esse novo livro?

GUILHERME: Acredito, muito sinceramente, que a assinatura de um poeta é o substrato que resta depois que ele faz de tudo para ser outro. Eu tentei e tento, a cada livro, fazer um percurso que me parece novo; mas algo retorna, a contragosto, subreptício. O que chega então é isso que não tem nome, para mim mesmo, mas que vejo os outros reconhecerem. É como a própria voz, como os tiques, as manias, os trejeitos de fala, que permanecem imperceptíveis para nós mesmos, enquanto são tão fortes para todo mundo em volta.

De forma mais concreta e objetiva, eu sei – porque apostei em continuar nessa linha – que o livro guarda um caminho de vida privada e política, de cruzamento de tradições várias numa pequena vertigem histórica do presente. Isso estava, de modo diverso, que seja, no carvão :: capim e também na História de Joia, pelo viés do romance.

Como surgiu, para você, a imagem da cerimônia chinook, para estruturar o livro? 

Não sei precisar o momento. Percebi, depois que o livro já tinha uma forma bastante desenvolvida, que ele era um verdadeiro ritual de doação, como o potlatch, termo da língua chinook; porque todo poeta repete um ritual dessa ordem. Isso acontece porque ele recebeu os dons da poesia do passado e do presente, processou como podia, compreendeu que os poetas do passado de algum modo entregaram tudo que tinham, e que a missão dele é oferecer um contradom, entregar também tudo que tem, sem grande expectativa de levar algo digno em troca, no risco mesmo da penúria. É o gesto da partilha, da vida pública que a poesia deve assumir. Se ela acontecer, esse contradom será, na verdade, o dom para os outros poetas, para o que ainda pode e deve ser escrito.

Como você define sua relação com as estruturas tradicionais da poesia, que de alguma forma estão presentes no Potlatch?

Eu diria que a relação não é de subserviência, nem de fascínio da tradição. É o reconhecimento de uma partilha vasta (de uma ancestralidade múltipla que conforma cada um de modo muito diverso, por assim dizer) que, no meu caso, precisa se dar pelo cruzamento, às vezes inusitado, de muitas coisas que me atravessam, não como sentimentalismo pessoal, mas como potência poética e política. Vai do canto de luto xona a trechos do Corão, passando por quadras budistas, Paul Celan etc. Não pretendo um esgotamento, nem um sistema, mas uma espécie de encontro, em que tomo parte e que repasso para os outros.

Uma coisa que chama a atenção, em Potlatch, é o contraste entre os poemas de amor, de sentimento, e a observação da ruína, do espaço vazio ou desolado. Pra você, existe um momento em que uma coisa acaba e outra começa? 

Nada termina, é certo, já sabemos; tudo termina, é certo, já sabemos. A ordem dessas frases, que fazem uma espécie de soneto duplo e torto pros meus filhos, pode ser invertida indefinidamente. Uma coisa acaba bem depois que outra começa; uma começa bem antes de outra acabar, porque estão entremeadas, vivem nos rastros umas das outras. Um dos anseios da minha poesia é escrever parte dos rastros, testemunhar (ou melhor, afirmar; ou melhor, criar) o espaço em que esses rastros entremeados são perceptíveis, porque nesse ponto ínfimo outros mundos são possíveis, por mais frágeis que sejam.

No seu processo criativo, tem algo que acontece “primeiro”? Você diria que parte de um verso que aparece, ou então de um acontecimento, ou outro ponto de partida? 

Tudo pode ser estopim de um poema. No entanto, desconfio que o poema forte nasce como peça inteira, se organiza no corpo, pelo corpo, e toma a forma que sempre teve, porque um poema não quer dizer nada. Como bem sabia Paul Valéry: um poeta quer fazer; e um poema faz o que tem de fazer, que é uma série de coisas imprevisíveis. Então, mesmo que ele surja, especificamente, de uma frase, de um acontecimento, de uma batida rítmica ou musical, ele só é poema, se de algum modo passar a agir como peça inteira. Isso demanda abertura ao poema, então o que faço é estar aberto, atento aos poemas, disposto a dispensá-los com frequência, mas a muitas vezes lutar para que um ponto inicial assuma sua forma plena, que mal parecia imaginável no início. Poema nasce fazendo.

Ainda a respeito do seu processo criativo, você sente que isso mudou ao longo do tempo? Teve algo que te despertou uma mudança?

Eu escrevi um tanto na adolescência e começo da vida adulta. Durante a graduação em letras, pela UFES, eu abandonei a escrita. Confiei meu desejo poético à tradução da poesia alheia e nisso fiz muita poesia inserindo a minha assinatura na assinatura de um poeta que me atravessava. Lá por 2009 eu voltei a fazer poesia, basicamente como efeito de uma troca muito intensa com Adriano Scandolara, Bernardo Lins Brandão e Vinicius F. Barth, o que resultou numa amizade fundadora, no blog Escamandro e nos nossos primeiros livros. Conto isso sem anseio autobiográfico; é tudo porque a mudança crucial veio da percepção muito concreta de que escrever poesia não fazia sentido, para mim, como ato solitário. Poema é partilha, demanda a presença do outro, só acontece com o outro. Amigos poetas como esses me fizeram querer novamente ser poeta; graças a eles, sim, mas mais importante: com eles. Nesse tempo, tudo que escrevi foi com os outros, para os outros; fazendo isso pude me assumir poeta de fato. Se vinga para além do círculo pequeno, bom, é uma pergunta que me faço, assumo, porém importa menos. A partilha é também o ponto de partida.