Imagem/reprodução – A Hora da Estrela de Suzana Amaral
Segundo Clarice, a inspiração inicial para A Hora da Estrela é o ar perdido que um nordestino exibe ao chegar no Rio de Janeiro
Laura Pilan
A Hora da Estrela é o título definitivo de um dos romances mais conhecidos de Clarice Lispector. Além dele, a autora elaborou outras treze possibilidades – tão interessantes e munidas de sensibilidade poética quanto a que foi escolhida. A ideia de que um livro possa ter tantos nomes não é só instigante – é também encantadora. “O direito ao grito”, “Ela não sabe gritar” e “A culpa é minha” dão conta de diferentes aspectos da obra e dizem tanto sobre ela quanto é possível em tão poucas palavras.
Não há opinião mais equivocada acerca da literatura de Clarice Lispector do que a concepção de que seus textos são domésticos e afastados do contexto político do país. Com talento inquestionável, a autora é capaz de uma imersão profunda na alma e na mente do indivíduo e, simultaneamente, de um olhar que abrange o universal. Ela nunca esteve alienada de seu momento histórico – pelo contrário.
Clarice olha diretamente para as chagas sociais, as toca e as expõe. É provável que A Hora da Estrela seja a sua mais brutal exposição da miséria, mas o contraste entre as classes sociais é explorado desde A Paixão Segundo G.H., por meio da própria G.H. e da figura invisível de Janair. Segundo Clarice, a inspiração inicial para A Hora da Estrela é o ar perdido que um nordestino exibe ao chegar no Rio de Janeiro.
Esse deslocamento é representado através de Macabéa – a invenção de Rodrigo S. M., o narrador. Ele se identifica como o escritor, de modo que a mulher nada mais é do que sua personagem, sua ficção. Nessas circunstâncias, o romance é a mais pura expressão da literatura sobre literatura. Aqui, o crucial é o modo como a história é contada. Rodrigo cria uma personagem diametralmente oposta a ele.
O principal fator que os distingue é a classe social: o status dele permite a escrita e a posição dela só tolera o silêncio. Se o narrador é o retrato típico do intelectual brasileiro em todas as suas vaidades, é inevitável que o leitor questione os seus direitos de retratar a miséria que desconhece. Para atingir seus objetivos, Rodrigo precisa se despir dos adornos da linguagem: a fim de narrar a trajetória de Macabéa, é exigido que ele se empobreça.
O narrador é a mediação fundamental entre Clarice e Macabéa, que precisa dele para existir. Como escritor, Rodrigo domina a história. Enquanto personagem, ela só tem presença e jamais o controle da própria vida. Deste modo, o homem sabe que Macabéa existe. A protagonista, indefesa, não sabe da existência dele. Diante dela, Rodrigo S. M. ergue-se como uma espécie de figura divina, onipotente e onisciente, enquanto Macabéa é sua criatura. Mas ele ainda é humano.
Em sua condição, possui tantas limitações quanto todos nós. É a escrita que constrói seu poder máximo – absoluto e inquestionável – de vida e morte. Macabéa é um instrumento de Rodrigo, uma ferramenta para cumprir um objetivo: o grito. Cria-se um abismo intransponível entre os dois, tornando-o cada vez mais importante e condenando-a à precariedade. A construção de Macabéa é realizada através da negação dos próprios desejos e repressão do corpo. Em face deles, a mulher não é só impotente como também é incapaz: não compreende as próprias vontades e não sabe como expressá-las, uma vez que não possui recursos para manifestar seus sentimentos.
A sua opressão data do início de sua vida. Se para Macabéa o café frio é um luxo, demonstra que, dentro de sua condição miserável, não consegue se enxergar de outro modo. Imersa em fraquezas e debilidades, o prospecto de um futuro agradável é a mais acessível de suas fantasias. A visita à cartomante é mais do que uma busca por certezas. Trata-se de uma demanda por possibilidades e por esperança.
Plantada no apartamento de madama Carlota, recebe a previsão enganosa de que um homem estrangeiro e rico apresentaria o desejo de casamento. Tomada por alegria, Macabéa é impedida de preparar-se para a tragédia que a aguarda ao atravessar a rua. Ela morre sem conhecer a felicidade que lhe foi prometida. Certa vez, Clarice Lispector afirmou que não escrevia esperando alterar qualquer coisa.
Sem dúvidas, Macabéa morre da mesma forma que sempre existiu. O romance não se propõe a apresentar uma saída ou uma solução – A Hora da Estrela é um silêncio e também uma pergunta. A autora não buscava transformar o mundo através dele e é provável que estivesse certa. Contudo, é impossível que o leitor seja o mesmo ao ler a primeira linha e ao fechar o livro pela última vez. Enfim, que não se esqueça: “por enquanto é tempo de morangos”.