imagem/reprodução Maureen Bissiliat É fato que Clarice baseia suas obras ao se apegar nas entrelinhas dos fatos corriqueiros Angélica Cigoli Frangella Constantemente nos deparamos com obras literárias que lemos e logo entendemos: “aqui há um aprendizado que ainda não consigo apreender”. É comum que esse sentimento se mostre presente em nós quando, diante de um grande nome da literatura, sobretudo, quando evocada ao de Clarice Lispector, “romancista do instante” e autora que faz os desprevenidos se atentarem à vida. É para tanto que a discussão do texto “Vertiginoso relance”, da crítica literária Gilda de Melo e Souza, evidencia tão importante passo ao longo do caminho para a compreensão da obra clariceana. É fato que Clarice baseia suas obras ao se apegar nas entrelinhas dos fatos corriqueiros. Para além de um desenvolvimento de narrativa que procura nos imergir nesses acontecimentos, significativos em grau que apenas uma escritora tão sensível poderia dar-se conta, Clarice notoriamente “está sempre virando a realidade diante para trás, desconfiada de que é no avesso da trama que poderá decifrar, afinal, o jogo escondido dos fios […]”. O que há de tão importante em notar tal aspecto de sua literatura, porém? Simples: é isso o que nos possibilita compreender que suas personagens e enredos estão lutando contra o fato de que narrar esse tal de Presente já é estar falando de um Passado; ou seja, “é uma luta contra o instante fugaz, um esforço desesperado para deter o tempo, fixar o momento num relance, definir o que não se define […]”. Ler um romance de Clarice é penetrar, ao mesmo tempo, no que há de superficial e sublime nessa coisa tediosa que é estar vivo. Talvez o momento divisor de águas de nossas vidas não seja um grande evento, mas sim um momento sentado à mesa, fazendo bolinhas de miolo de pão, ou ouvindo esperançosamente o futuro diante a uma cartomante. É por isso que Clarice acorda os desprevenidos – o narrador não apenas narra, como também sussurra: “Atenção ao que está por vir! Atenção!”. Talvez o ponto alto de sua literatura seja justamente compreender que o que há de valioso não são as passagens que percorremos em nossos anos, mas o valor que a elas atribuímos. Pela forma que Gilda de Melo constrói brilhantemente sua discussão acerca de obras como A maçã no Escuro, passamos a identificar novas maneiras de apreciar não só a prosa de Clarice, mas também os nossos dias que se parecem tanto com os de G.H. e Macabéa. O grandioso é compreender: “Para Clarice Lispector um instante será suficiente para toda a narrativa. E a sua tarefa vai ser, justamente, a de narrar esses ‘momentos que não se narram’ […]” – e é aí que mora a preciosidade e mágica de suas palavras.