Mariana M. Braga

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Dorotéia: a peça do Nelson Rodrigues que mais traz elementos grotescos. A direção de Mariana Zanette, a cenografia de Aorelio Domingues e  a iluminação de Wagner Corrêa exploram essa característica da peça e de todo o teatro rodrigueano. Os atores e as atrizes vivem as viúvas da família que teria sido amaldiçoada, pois as mulheres não podiam enxergar os homens. Todas elas, após a noite de núpcias, sentiam uma náusea que as caracterizava como moças direitas. Todas elas teriam tomado substâncias para obterem chagas no rosto e no corpo, tornando-se feias, medonhas, e evitar o desejo.

Mas Dorotéia não teve a náusea e, mais do que isso, adorava homens e se tornara prostituta. Cansada da vida “leviana”, buscou as tias, pedindo para se tornar uma delas na feiura e no comportamento. Bastou a presença dela para desestabilizar a realidade das tias que viviam em vigília para não deixar o desejo aparecer e nem tinham quartos para evitar a intimidade. A partir de então, elas lutam com ainda mais veemência contra símbolos masculinos: o jarro e as botinas desabotoadas.

É uma história das pulsões contra o recalque. E o recalque vem representado pela feiura e a decomposição das personagens, muito contrastada nessa encenação com a beleza e a alegria de Dorotéia.

O cenário foi muito bem pensado, com dois grandes armários cilíndricos que giram. Eles caracterizam o interior da sala das viúvas, as portas, o lugar onde ficam as mortas e é também por onde anda o homem que passa a ser visto pelas senhoras, causando desespero. Ele faz acrobacias de um armário a outro e dentro deles. Muito bacana.

Foi boa a ideia de fazer a personagem morta de Maria das Dores aparecer ao fundo atrás de um tecido translúcido e depois pela projeção. O único problema é que o som muitas vezes ficou com um eco que nos impedia de entender o que a personagem dizia. Quem não conhecia o texto não pôde compreender  momentos importantes como quando a jovem morta diz que vai voltar ao útero da mãe.

Adorei ver uma peça rodrigueana tão bem dirigida e produzida em Curitiba, já que desde o centenário do escritor a maior parte delas estão acontecendo no Rio e em São Paulo. Está em cartaz até dia 25 de agosto, de terça a domingo, às 20h, na Cia. dos Palhaços. Rua Amintas de Barros, 307.