Espetáculo inspirado na obra de Nelson Rodrigues trata das fraquezas humanas em estado bruto

Mariana M. Braga

Pelo buraco da fechadura o menino espia o mundo adulto, com todas as suas sensualidades e loucuras, resultantes das mais selvagens vontades carnais. Mas como o próprio Nelson Rodrigues dizia, o homem é o menino perene, e aquele que espia pela fechadura também vive essa loucura. Essa é a imagem do anjo pornográfico, como se auto-intitulou Nelson Rodrigues, e também a imagem em que se inspira a peça que homenageia o centenário do mais importante e polêmico dramaturgo brasileiro, que dentre tantas outras atividades também foi jornalista, contista e cronista.

Foi ele quem apontou todo o lado selvagem da natureza humana, criando personagens que viviam histórias de violência, incestos e traições. Por isso suas peças deixavam horrorizado o público brasileiro a partir da década de 1940, que o denominava, junto à maior parte da crítica, de louco e tarado.

Se as peças rodrigueanas são a parte mais extravagante da obra do autor, as crônicas publicadas entre os anos de 1951 e 1961 no jornal Última hora, na coluna A vida como ela é, apresentaram um conteúdo mais realista. Mas não muito, porque senão não seria Nelson Rodrigues. Nestas crônicas ele tratou do cotidiano da sociedade carioca da época e dos seus preconceitos,  inserindo conflitos sexuais, incestuosos e violentos, numa análise crua da realidade.

Nessa linha, a adaptação dos textos de Nelson Rodrigues e a direção do espetáculo Buraco da Fechadura tratam cruamente da psicologia humana, dos seus gostos, desejos, preconceitos e pecados. O cenário é simples e imutável, composto por diversos tamanhos e formas distorcidas de camas. Os seis atores também se mexem muito pouco e dividem, entre todos eles, os diversos personagens que compõem cinco histórias inspiradas na obra de Nelson Rodrigues.

Esses papéis compartilhados pelos atores dão a idéia de que todos são um pouco de cada um deles, extraindo o que há de mais humano no personagem rodrigueano: a síntese do homem em eterno conflito entre o seu próprio desejo e a sociedade que está a sua volta.

Nessa montagem inspirada em Nelson, não foi preciso compor o palco de cenários e figurinos realistas que remetam à época em que as peças rodrigueanas nasceram, nem personagens estereotipados. Nessa direção, a imagem não é tão importante. O texto tem seu lugar central e os sentimentos ali expostos, na montanha-russa rodrigueana de amor e ódio, são representados em seu estado bruto, na sua essência. O humano e o universal se encontram nos gestos dos personagens, enriquecidos pelo que há de brasileiro na palavra de Nelson. A peça sintetiza o que ele insistia em fazer: revelar os segredos que seriam insuportáveis de compartilhar.

MARIANA MARCONDES BRAGA

SERVIÇO

De 1º a 26 de agosto
Quarta-feira às 17h e 20h
Quinta a sábado às 20h e domingo às 18h

Teatro Antonio Carlos Kraide- Portão Cultural
Avenida República Argentina, 3430, Água Verde
Telefone: (041) 3229 4458  e (o41) 98763596