Apeteceu-nos fazer uma experiência: retirámos um excerto do romance “Uma Casa na Escuridão” de José Luís Peixoto e cortámos a narrativa em verso. A escrita de José Luís Peixoto tem esta particularidade, a de ser uma prosa naturalmente poética, facilmente adaptável em poema. Espero que gostem deste “novo” poema de José Luís Peixoto, a que poderíamos chamar simplesmente de Um poema de Amor.
Amor.
Amor.
Amor,
gostava de dizer
esta palavra até gastá-la ainda mais.
Amor,
gostava de dizer esta palavra até perder
ainda mais o seu sentido.
Amor.
Amor.
Amor, até
ser uma palavra que não significa
nem sequer uma ilusão, uma mentira.
Amor,
amor,
amor, nem sequer uma mentira,
nem sequer um sentimento
vago
e incompreensível.
Amor
amor
amor, até ser nem sequer uma palavra banal,
nem sequer a palavra mais vulgar,
nem sequer uma palavra.
Amoramoramor, até
ao momento em que alguém diz
amor
e ninguém
vira a cabeça para ouvir, alguém
diz amor e ninguém ouve, alguém
diz amor e não disse nada.
Sozinho,
diante da campa.
O amor é a solidão.
José Luís Peixoto
adaptação feita a partir de «Uma Casa Na Escuridão»