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Nov23

Manuel Pinto

(...)«Não há dúvida que, se ao activo da literatura, se aponta um vasto rol de benefícios, não deixam as almas vesgas de libelar suas pretendidas e já clássicas ruindades: endeusamento romântico da paixão, desdém do comum e quotidiano, hipertrofia da personalidade, anarquia mental tantas vezes, sadismo da celebridade, gosto de escândalo, etc., etc. À incriminação que sofreu o Werther de parte de certo bispo anglicano quanto à influência mórbida que exercia em mais de um débil mental, respondeu o próprio Goethe:
"Gostava de saber como pode V. R. ficar de bem com a sua consciência as vezes que, subindo ao púlpito, consegue, com suas palavras pavorosas a respeito das penas do Inferno, sugestionar a tal ponto um outro cérebro fraco que, acabando de perder o juízo que lhe resta, vai terminar os dias ao manicómio. Ou que para alcançar mais depressa o Céu, rompe a cometer todos os actos de maceração física que poderemos chamar a estrada do suicídio. Isso acha bem, não? Acha bem e louvado seja o Eterno! Mas já que assim é, com que direito, faça o obséquio de me dizer, se atreve a reprovar um escritor de génio por ter composto uma obra que, mercê dos espíritos tacanhos que a interpretaram, contribuiu para livrar a sociedade de uma ou duas dúzias de cretinos ou monómanos que o melhor que tinham a fazer há muito era ter-se atirado a um poço bem fundo?! Estou persuadido que todos aqueles que se matam depois de haver lido Werther fraco papel tinham a desempenhar debaixo da rosa do Sol."»...

publicado às 17:09