Elogio do Dilaceramento
Esta idade não é
não pode ser o tempo da felicidade.
Apesar de ferido de morte, o animal
recusa-se a perecer.
Exacerbam-se o desejo e a posse. Vivo
entre formas tenebrosas e densas
alérgicas à luz. Permanentemente insatisfeito
perco-me nas coisas – just enough
is never enough .
À lentidão e meio-termo da penumbra
prefiro o sol do meio-dia
as promessas das trevas e
o ritmo endiabrado do efémero.
Os amigos são raros
as esquinas sucedem-se
e tudo isto ao mesmo tempo
atemoriza-me e atrai-me...
De sul norte este e oeste
divergem os caminhos que me afastam
do meu secreto centro.
Esses caminhos são fantasmas do passado.
Labirintos. Ajustes de contas sempre adiados.
O que fui e não consigo deixar de ser;
noites brancas e
dias negros, cada ínfimo instante do mundo...
tento esquecer.
Tento esquecer e aproximar-me do centro
mas a memória trai-me:
- continuo a ignorar
quem ou o que
se reflecte
no espelho...
José Almeida

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