Corrigindo a postura, Sofia pousou os dedos nas teclas; depois, com a máxima delicadeza, começou a tocar.
Ao ouvir o primeiro compasso, o Conde deu dois passos atrás.
Aquelas oito notas eram-lhe familiares? Reconheceu-as ele minimamente? Oh, tê-las-ia reconhecido mesmo que não as visse havia trinta anos e elas entrassem no compartimento de um comboio. Tê-las-ia reconhecido, se tivesse esbarrado nelas nas ruas de Florença no pico da época alta. Resumindo: tê-las-ia reconhecido onde quer que fosse.
Era Chopin.
Opus 9, número 2, em mi bemol maior.
Quando ela terminou a primeira iteração da melodia, em pianíssimo perfeito e passou para a segunda com a sua insinuação de força emocional crescente, o Conde recuou mais dois passos e deu por si sentado numa cadeira.
…
Qualquer que fosse o sentimento de mágoa que Chopin tivesse querido exprimir através desta sua composiçãozinha – quer tivesse sido causado pela perda de um amor, quer simplesmente pela doce angústia que sentimos ao ver a bruma num prado de manhã -, a emoção estava ali mesmo, pronta a ser vivida ao máximo, no salão de baile do Hotel Metropol, cem anos após a morte do seu compositor. Mas a dúvida persistia: como é que uma rapariga de dezassete anos conseguia alcançar uma expressividade daquelas, senão recorrendo a uma sensação de perda e mágoa extraídas da sua própria vida?
Um Gentleman em Moscovo, de Amor Towles, Dom Quixote 2017
