(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de março de 2004)

     Está acontecendo com o egípcio Naguib Mahfuz um fenômeno que atinge determinados autores no Brasil: ignorado durante décadas, com poucas obras traduzidas (a trilogia formada por Entre dois palácios, O palácio do desejo e O jardim do passado e o pequeno romance As codornas e o outono), recentemente começou a figurar no catálogo de várias editoras. Por exemplo, a Record vem lançando obras do início da sua carreira, voltadas para o passado do Egito (O jogo do destino, A batalha de Tebas). Já a Berlendis & Vertecchia, por sua vez, colocou em circulação uma obra mais madura, de 1967, MIRAMAR, a qual deve ter pesado consideravelmente na premiação de Mahfuz com o Nobel em 1988. Depois de ler esse romance (na tradução de Safa Abou Chahla Jubran), é impossível não reconhecer que ela foi justíssima.

São quatro os narradores, todos eles pensionistas: da senhora Mariana, num edifício sobre o café Miramar, em Alexandria. O octogenário Amer Wagdi é um jornalista famoso, cujo final de vida é melancólico (“Parecia ter plena consciência do esquecimento e da ingratidão dos homens”): as reviravoltas políticas transformaram-no numa espécie de peça de museu respeitada e no entanto posta de lado, num país onde “não valorizam um homem a não ser que seja um jogador de futebol” (nós, brasileiros, conhecemos bem isso, não?); os outros três (Hosni Allam, Mansur Bahi, Sarhan Al-Biheiri) são jovens que além de tentarem se posicionar no novo tabuleiro social pós-Revolução Nacionalista (no qual a melhor esperança, para aqueles que não são jogadores de futebol, é o cargo público—como também se vê em As codornas e o outono, de 1962—cujos ocupantes despertam inveja e sentimentos ambivalentes) têm em comum a atração pela empregada doméstica da pensão, Zohra, jovem camponesa, assediada por todos (embora de forma mais delicada por Mansur Bahi) e que se apaixona pelo inconstante, mulherengo e arrivista Al-Biheiri, que será assassinado após uma série de incidentes passionais na pensão da ex-cafetina.

Da maneira como Mahfuz estruturou MIRAMAR (Wagdi toma a palavra no início e no fim, com seu olhar compassivo e resignado), os fatos se repetem, mas sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que parece generosa para um pode parecer mesquinha para outro; um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou por outro; Zohra também muda segundo a visão e a expectativa. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato e quem leu as memórias de Simone de Beauvoir acaba por lembrar-se da narração do seu aprendizado da técnica da ficção: a manipulação da narrativa feita pelos próprios personagens: [pintando-a]”…tal qual desejava ser e tal qual era, eu conseguia exprimir essa distância de si para si que é a má fé”.

Nesse ponto, o único personagem que escapa dessa armadilha é o jornalista macróbio, e mesmo assim ele é impotente diante do desenrolar dos fatos.

Por outro lado, e principalmente tratando-se do mundo árabe, ainda que ocidentalizado em parte, é muito importante ler um romance que retrata com tanta força a estrutura social, onde os debates políticos atingem a medula da narrativa, de tal forma que nem a convivência íntima numa pensão decadente se aliena da tensão sócio-politica, acabando por se transformar num microcosmo do Egito. Quando se tem da civilização islâmica (há frequentes citações do Alcorão em MIRAMAR) apenas notícias envolvendo terrorismo, fanatismo, modos retrógrados de viver e pensar, é bom reajustar a ótica e ver que ali também há o quotidiano, as discussões e querelas que envolvem qualquer sociedade, os mesmos problemas que homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade social, enfrentam em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus.

Esse aspecto já tornaria necessária e recomendável a leitura de Naguib Mahfuz. A alta qualidade literária de uma obra como MIRAMAR a torna indispensável.

(resenha publicada originalmente  em  A TRIBUNA  de Santos, em  cinco de agosto de  2006, em função da morte de Mahfuz)

Mesmo depois que Naguib Mahfuz ganhou o prêmio Nobel em 1988 os brasileiros demoraram muito tempo para conhecer mais amplamente a força da obra do grande escritor egípcio, falecido nesta semana.

Os pioneiros, logo após a premiação, foram As codornas e o outono (1962), pequeno e esplêndido romance sobre as agruras de um funcionário público em meio a uma revolução nacionalista, e a Trilogia do Cairo (Entre dois palácios, O palácio do desejo, O jardim do passado), grande painel à moda realista, escrito e publicado nos anos 40/50.

Década e meia depois é que proliferaram os lançamentos que oferecem uma visão incompleta, porém bastante discernível, de uma obra multifacetada: a Record (responsável pela Trilogia do Cairo) vem lançando a série de romances histórico-folhetinescos do início da carreira (final dos anos 30) de Mahfuz, tramas mirabolantes que transcorrem num Egito Antigo com clima de novela das oito: é o caso de O jogo do destino , de A batalha de Tebas e de Akhenaton, o rei-herege . É incrível a fluência e naturalidade das narrativas. E muito antes que a história das mentalidades nos apresentasse o dia-a-dia de civilizações longínquas, Mahfuz já nos trazia personagens do passado monumental do seu país que não parecem meros hieróglifos animados, vivendo de forma retumbante e hierática. Pelo contrário, ele chegava a aburguesar a sociedade do Antigo Egito faraônico.

Outra incursão de Mahfuz no passado glorioso, por assim dizer, são as 17 narrativas de Noites das mil e uma noites  aproveitando o arquétipo supremo da arte de contar histórias.

Mas é preciso dizer que entre o que se publicou no Brasil, o melhor de Mahfuz está nas narrativas contemporâneas. O leitor talvez encontre dificuldade de encontrar os já esgotados As codornas e o outono e Trilogia do Cairo. Duas obras-primas ainda em circulação poderão convencê-lo: O beco do pilão (1947) e Miramar (1967).

O beco do pilão  é uma miscelânea de pequenas vidas na parte antiga do Cairo durante a 2a. Guerra Mundial, lembrando (e superando em delicadeza e destreza de toque) A colméia, do igualmente nobelizado Camilo José Cela.

Miramar (Berlendis & Vertecchia, R$ 44) tem quatro narradores, pensionistas da sra. Mariana: um jornalista octogenário e três jovens tentando posicionar-se no tabuleiro pós-Revolução (a meta ambicionada é o funcionalismo público). A catalisadora da ação é Zohra, jovem camponesa, assediada por todos. Os fatos se repetem, sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que pode parecer generosa para um pode revelar-se mesquinha para outro, um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou outro. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato; enfim, a convivência íntima numa pensão decadente se transforma num vívido microcosmo do Egito contemporâneo, onde, na verdade, surgem os mesmos problemas de qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus: homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade ou imobilidade social.

E em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus, a obra de Naguib Mahfuz é indispensável.