(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 2003)
O destino acompanha as histórias que a humanidade conta para si mesma desde o início dos tempos. Basta lembrar de Édipo e de Moisés para que se tenha em mente como, ao se tentar mudar a prefiguração dos eventos, pode-se ajudar a concretizá-los. Esse é um ponto-chave das grandes tragédias. E é o eixo aparente de O JOGO DO DESTINO [Abath Al Aqdar, traduzido por Ibrahim Georges Khalil, com a colaboração de Suely Ferreira T. Lima], um dos primeiros romances do egípcio Nagib Mahfuz.
O faraó Khufu recebe, através de um mágico, a revelação de que o seu sucessor será o filho do sacerdote Mun-Rá (não, leitor, não é o vilão dos Thundercats), que acaba de nascer. Khufu resolve executar o bebê e de fato encontra um no palácio de Mun-Rá, que seu filho, o presumido herdeiro por direito de sucessão, Ra´kha´uf, mata com um golpe de espada. Só que a mulher do sacerdote e o filho verdadeiro fugiram com uma criada, Zaya. Esta abandona sua senhora no deserto, à mercê dos beduínos e acaba tomando como marido um alto oficial do faraó.
Redef, o menino, cresce crendo ser Zaya sua mãe. Destaca-se como soldado, tornando-se um dos homens de confianças de Ra´kha´uf. Apaixona-se pela filha do faraó, Meressankh.
Ra´kha´uf decide dar um golpe de estado contra o pai, cansado de esperar. Enquanto isso, a verdadeira mãer de Redef reaparece…
Duas características de imediato ficaram realçadas durante a leitura de O JOGO DO DESTINO: em primeiro lugar, Mahfuz surpreende como um narrador de incrível fluência e naturalidade, tendo publicado esse romance em 1939, com menos de 30 anos; se o árabe é, por excelência, um contador de histórias (como se lê no prefácio dos tradutores de um outro romance seu, o pungente As codornas e o outono, de 1962), o prêmio Nobel de 1988 parece ser a consumação escritas desse pendor inato; além disso, em segundo lugar, o Antigo Egito nos aparece sem o tom grandiloqüente e solene usual.
Nada é grandioso em O JOGO DO DESTINO, não há nada espetaculoso, nem as cenas de batalha (entre o exército do faraó, comandado por Redef, e os beduínos que fizeram de sua verdadeira mãe escrava e concubina), a vida quotidiana predomina, com sua rotina. Antes que a história das mentalidades nos apresentasse o dia-a-dia das civilizações longínquas, Mahfuz já nos trazia personagens do Antigo Egito que não parecem apenas hieróglifos animados, vivendo de forma retumbante e hierática.
Mas isso é uma qualidade inicial que acaba por se tornar um defeito, ou antes um problema. O JOGO DO DESTINO acaba por aburguesar demasiadamente a atmosfera do Antigo Egito faraônico e acaba trivializando a questão do destino, que é seu ponto principal, pois para se crer na história, para que ela tenha impacto sobre nós, é preciso que Khufu, o faraó, seja uma figura grandiosa, o homem que poderia—na visão que tem de si mesmo e na visão de seus súditos—tomar nas mãos a roda da fortuna e modificá-la e que se descobre, no final da vida, um mero peão na concretização do irrevogável, do fado inescrutável, uma vez que o homem a quem deu a mão da filha e que matou seu filho e sucessor, para salvá-lo da conspiração, é aquele que sobrevivera à sua tentativa de mudar o que estava previsto.
Aqui, nada de Sófocles ou Shakespeare, ou mesmo Tolstói (para ficar na área do romance e da grandiosidade). A história atola nos limites do folhetim romântico, de um Camilo Castelo Branco, quando não ameaça às vezes degenerar para Sidney Sheldon, Christian Jacq (urgh!) ou novela mexicana (nesse sentido, o encontro decisivo entre as duas mães de Redef é de lascar!).
E mesmo no sentido romântico o romance falha. Se um casal geralmente é o centro das histórias, poucas vezes se viu um casal mais insípido e anódino do que Redef e Meressankh, os quais realmente, apesar de várias vezes caracterizados como lindos, perfeitos, deslumbrantes, merecem ser chamados de meros joguetes do destino ou do romancista.
Constatava-se essa falha também em As codornas e o outono (que transcorre durante uma revolução nacionalista em meados do século passado): os acontecimentos eram muito interessantes, porém o protagonista, Issa, não o era nem um pouco. E se estamos falando de destino evidentemente é preciso que nos interessemos pelos personagens, ou então tanto faz o que acontgeça com eles. Shakespeare conseguiu fazer com que nos interessássemos até mesmo por um casal de assassinos como os Macbeth.
Em O JOGO DO DESTINO há lamentações contra os deuses que regem os fados humanos, as quais ecoam outras semelhantes, que podemos encontrar em Antígona ou Rei Lear (por exemplo: “O cruel destino fizera com que ele fixasse os olhos no retrato que guardara em seu peito. Um destino imposto por um espírito perverso, daqueles que se comprazem em atormentar a espécie humana”), contudo nada que acontece tem a ressonância cósmica daqueles textos. Talvez a falta de grandiloqüência não combine realmente como Egito Antigo.





