Talvez os megainteligentes tenham descoberto que a felicidade passa por uma via muito distante dessa que a nossa sociedade contemporânea enxerga como “a trilha das pessoas de sucesso”.

Maria Paula Curto *

Essa semana eu participei de uma discussão em grupo sobre o capítulo 8 – Prodígios, do livro Longe da Árvore de Andrew Solomon (aliás, se você tiver coragem para encarar as mais de mil páginas desse livro, eu recomendo. Sugestão: leia devagarinho, um capítulo por mês, como estou fazendo, que fica mais suave e, acredite, valerá a pena) que me suscitou uma série de questionamentos. Ser um prodígio na infância é garantia de um futuro brilhante? Ter uma inteligência muito acima da média assegura uma carreira bem-sucedida? Ou ainda uma vida mais feliz? 

Pela pesquisa de Solomon – e também na minha pouca experiência com casos desse tipo – eu diria que não. E por que será que isso não acontece? O que faz um prodígio “não dar certo”?

Talvez a gente devesse começar nos perguntando: mas o que é “dar certo”? Eu sempre tive um certo ranço dessa frase: Fulano deu certo. O que é dar certo? É ter seu próprio negócio? Virar CEO de empresa? Então, eu devo ter dado bem errado, pois isso nunca esteve nem nos meus planos mais remotos. E olha que eu “comecei bem” pois curiosa que sou, infernizei minha mãe e ela mesma me ensinou a ler e a escrever aos 4 anos de idade. Isso me fez gênio? Não. Apenas uma menina chata, que, na escola, por já estar alfabetizada, não parava de perturbar as outras crianças e voltou para casa com um castigo logo na primeira semana do ano letivo: escrever 100 vezes no caderno “Não devo conversar em sala de aula”. E isso claramente não deve ter me feito muito feliz, não é mesmo?

O que faz um prodígio “não dar certo”?. Foto: divulgação/ Cia. das Letras

Mesmo não sendo um prodígio, no último ano do ensino médio, fui escolhida para fazer parte de uma turma especial, com a famosa conversa “Aqui você é preparado para ingressar nas melhores universidades!” Felicidade? Para quem, cara pálida? Eu estava era sendo tratada como um simples produto, necessário para compor as estatísticas de sucesso do cursinho. Estudava feito uma louca, de segunda a sábado, fazia prova no domingo, no centro da cidade do RJ (vazio e bem perigoso), para conseguir passar para uma universidade pública e fazer um curso que eu nem tinha certeza de que queria… Até hoje tenho minhas dúvidas de que talvez eu teria sido bem mais feliz se fizesse Letras ou Artes Cênicas. Mas o que eu faria com aquele meu super-raciocínio matemático do passado? Faça engenharia e tenha um futuro à sua frente. De frustrações. Pena que o meu “brilhantismo” numérico me impediu de enxergar que o sangue pulsava mesmo era nos bastidores do teatro ou nas entrelinhas da literatura…

 Meus companheiros de classe, alguns extremamente bem dotados (de inteligência, caso você tenha pensado em outra coisa) não foram necessariamente um sucesso. No meu ano, nenhum conseguiu o famoso primeiro lugar no vestibular da Cesgranrio, o que fez o investimento na tal turma especial trazer retornos mais pífios que a Bovespa dos últimos tempos. Na faculdade, novamente esse modelo de insucesso se repetiu. Os detentores das melhores notas, os melhores alunos da turma, com médias superiores a 9,5 (quem fez engenharia vai entender o valor – e o peso – desse número) hoje continuam sendo simples assalariados, tentando fazer um pé de meia para sobreviver a uma aposentadoria do INSS (cada vez mais distante e mais minguada), igualzinho a nós, pobres mortais da linha da mediocridade. 

O que será que acontece ao longo do caminho dos superdotados (novamente, estou falando de QI, ok? Nessa outra seara, que certamente passou pela sua cabeça – pode confessar – eu não tenho a mais vaga ideia do que acontece com eles. Apesar de querer saber mais a fundo…) para que eles não alcancem um “sucesso corporativo”? Algum “coach profissional” poderia dizer que o problema deles está na falta de inteligência emocional. Será que é isso? Ou só isso? Ou os mecanismos de controle do sistema, que tentam encaixar a sociedade num padrão dito normal, também excluem esses indivíduos por serem diferentes do esperado? Mesmo que essa diferença, no caso, seja “a maior”? Será que, para o sistema, qualquer pessoa que escape à régua da conformidade, para mais ou para menos, precisa ser moldada, enquadrada ou se tornará uma eterna ameaça? Por que tanto medo do diferente? O que a diferença traz de tão perigoso?

E será que os “bem-sucedidos” são realmente felizes? Será que trabalhar 24 por 7 (ou alguém ainda acredita que, com celular, e-mail, WhatsApp, redes sociais etc., a gente trabalha 8 horas por dia??), ser cobrado diuturnamente por qualquer variação no valor de cada ação da empresa, não conseguir tirar “férias” de mais de 7 dias, abrir mão daquela cervejada com a galera, apenas para falar besteira, ter que postar fotos e frases de efeito a cada 24 horas – ou você será sumariamente penalizado com a perda de centenas de seguidores, ter que controlar falas, sustos, raivas e esfíncter em cada espaço que ocupa para manter a postura e a liturgia do cargo pode permitir que alguém seja realmente feliz? Será que ter salários na casa dos 6 dígitos e bônus milionários compensam toda essa renúncia? O mais impressionante é que, nesse caso, o modelo de controle é tão perverso que não precisa de barras de ferro, nem arame farpado nem cerca eletrificada. Nem de vigias nem guardas. A vigilância é autoinfligida. E desejada. É isso que reconhecemos como sucesso?

“Talvez eles tenham percebido que a felicidade pode estar no aqui e agora. Sem precisar de flashes, badalações, ou glamour. Sem medalhas nem estrelas no peito. Sem makes, botox ou retoques. A felicidade nua e crua”. Foto: acervo da autora

Talvez os megainteligentes tenham descoberto que a felicidade passa por uma via muito distante dessa que a nossa sociedade contemporânea enxerga como “a trilha das pessoas de sucesso”. Talvez o verdadeiro prodígio tenha escolhido o caminho do simples, do café com leite, do pão quentinho com manteiga do botequim do seu Zé, onde todos o chamam pelo primeiro nome, e onde ele pode chegar de chinelo de dedo, bermuda e camiseta. Talvez ele tenha percebido o valor de deitar numa rede e se deixar balançar. De um banho de mar, de rio ou cachoeira. De ter os amigos e família por perto. 

Talvez eles tenham percebido que a felicidade pode estar no aqui e agora. Sem precisar de flashes, badalações, ou glamour. Sem medalhas nem estrelas no peito. Sem makes, botox ou retoques. A felicidade nua e crua – e tão poderosa – de simplesmente ser quem se é. 

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.