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| Fotografia da minha autoria |
«O dia em que completei 32 anos foi o início do ano mais estranho da minha vida»
Avisos de Conteúdo: Doença Progressiva
As aplicações de encontros vieram revolucionar um pouco a forma como conhecemos outras pessoas, quando estamos solteiros. Confesso, porém, que sempre tive mais dúvidas que certezas em relações às mesmas, porque sinto que não tenho um perfil que se adeque a todo o processo. Mas não deixa de ser uma porta entreaberta. E acabei por refletir ainda mais sobre esta questão ao descobrir o livro de Dolly Alderton.
ESTAR SOLTEIRA AOS TRINTA
Estás aí? é um retrato muito credível do que é ser-se solteira aos trinta anos, cuja pressão para encontrar alguém e constituir família, enquanto se gere a perceção de envelhecimento, assume contornos sufocantes. E não se torna mais fácil quando, ao baixarmos as nossas defesas, permitindo que entrem na nossa vida, interferindo com as nossas expectativas e os nossos sentimentos, as pessoas, simplesmente, desaparecem.
«Eu reparara que isso era algo que as pessoas faziam quando chegavam aos trinta:
viam cada decisão pessoal que tomávamos como um juízo de valor direto sobre a vida delas»
A prática do ghosting é algo que me incomoda, porque toca a desumanidade. Por mais dolorosa que seja a verdade, será sempre mais aceitável que este vazio, que este silêncio que nos deixa no limbo, potenciando inseguranças, ansiedade e frustração. E, inclusive, despertando uma sensação de culpa injustificada. Portanto, ao acompanhar a experiência da protagonista, ciente que pairamos em realidades distintas, acabei por me rever em vários dos seus pontos de vista e na própria postura que assume, quando abraça um relacionamento.
«A descoberta ao mesmo tempo mais tranquilizadora e perturbadora que fiz
naquelas intensas primeiras semanas de clicar compulsivamente para a esquerda
e para a direita no Linx foi quão desprovidos de imaginação os seres humanos são»
Outra ramificação interessante desta narrativa é a da amizade. Num plano em que o seu núcleo próximo começa a casar e a ter filhos, expõe não só as sensações que esse contexto desperta, mas também o quanto podemos estar em fases de vida [quase] antagónicas, sem que isso implique um afastamento. Por consequência, vamos questionando o quanto a idade pode ser um fator condicionante ou um impulso para arriscar; vamos questionando se a idade desperta mais medos ou mais segurança. Sem chegar a uma verdade absoluta, compreendemos que esta travessia tem inúmeras áreas cinzentas: porque depende de cada um.
«Nunca conhecera uma mulher mais segura
dos seus pensamentos e instintos, e era uma coisa linda de se ver»
Em simultâneo, agradou-me que a autora não se tenha apenas focado nas relações amorosas, mas que tenha avançando por outros caminhos, equilibrando a energia do enredo com, por exemplo, o destaque para as doenças progressivas, porque sinto que o tornou mais credível e mostrou o propósito da personagem principal, que não deixou de ter outras prioridades e preocupações por sentir que era o momento de ser bem sucedida a nível pessoal. Embora encontremos partes um pouco previsíveis, é uma história que diverte e desarma.
«Quando as coisas se tornavam demasiado grandes,
sentia necessidade de me fazer o mais pequena possível»
Estás aí? é um romance cómico, descomplicado, por vezes duro e com temas sérios, sobretudo, porque nos faz pensar sobre quem somos, sobre como nos podemos redescobrir e sobre o quanto é urgente compreendermos que não temos de caber todos nos mesmos padrões, nem alcançar as mesmas etapas.
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