Ramon Amorim
Créditos da imagem: Kurt Weston, Everything Comes Down to This, 2020
Na reta final da pesquisa que desenvolvo sobre a produção literária brasileira que aborda o tema do HIV (e da aids), tem me interessado a representação daquilo que considero como o passo seguinte em relação à discussão proposta por Alexandre Nunes de Sousa sobre as “narrativas pós-coquetel”: as tensões envolvidas nas práticas de sexo barebacking.
Há dois elementos que emergem dessa questão, a elisão do uso da camisinha como método universal de prevenção ao HIV e o manejo dos riscos inerentes a essas práticas. O que se observa é que os dois elementos são contíguos, porém diversos nas suas maneiras de existir dentro daquilo que vem se desenvolvendo desde a crise da aids nas duas últimas décadas do século passado.
Forma primeira (e durante muito tempo, única) de prevenção ao HIV, a camisinha passa hoje por um processo de secundarização como método para esse fim. Aquilo que Sejo Carrascosa denomina de “fracasso del condón” chama a atenção para a fragilidade desse método como recurso para frear a epidemia e ajuda, em parte, a explicar a adesão ao chamado sexo bare.
O manejo dos riscos aparece hoje com muita força nas relações sexuais, principalmente entre homens, sobretudo pelo advento da consolidação das técnicas de profilaxia em relação ao HIV. Mesmo sendo específica para evitar a infecção (apenas) pelo HIV, a PREP e a PEP têm justificado a abolição da camisinha das relações sexuais, mesmo contra a orientação médica que fala em prevenção combinada.
No que diz respeito à produção literária, essa abordagem temática tem ganhado representação, ainda tímida, em algumas narrativas, caso do romance Bug Chaser, de Romário Rodrigues Lourenço, lançado originalmente no ano de 2015. Focado em um personagem que desenvolve desejo sexual na soroconversão e, a partir daí, busca práticas para se expor ao HIV, o romance apresenta dinâmicas e circuitos onde o sexo barebacking e ocasional é promovido: “ao longo daquele salão, cerca de mais de trinta homens […] repetiam o mesmo sexo livre e descomprometido. Sem capas. O sexo exatamente como ele era e deveria ser. Sem medo, sem inibições.”
Nesses circuitos, muitas vezes os encontros visam justamente a soroconversão consentida de sujeitos HIV negativos e a troca de fluidos “vitaminados” entre os que são positivos. Assim, a confirmação da sorologia passa a ser uma espécie de chave de entrada em um grupo de iguais, o acesso a uma irmandade quase oculta.
As tensões que permeiam as questões envolvidas nesta discussão são muitas e não cabem em um post. Mas é preciso pensar em como a perda da noção de urgência em relação à temática do HIV e da aids, possível diante dos avanços biomédicos e farmacológicos, tem possibilitado a construção de uma série de discursos e representações sobre o vírus e a doença muito diversos daqueles que circulavam até então.