07
Nov23
Maria do Rosário Pedreira
Só uma pessoa que ama verdadeiramente os livros tem certos gestos de respeito e consideração para com os seus donos. Não estou a falar de não virar os cantos, dobrar a lombada ou até sublinhar um livro emprestado. Falo, sim, de uma história bonita que uma velha amiga, jornalista do Expresso, contou um dia destes no Facebook. Dizia ela que na véspera lhe haviam entregado um livro que fora da sua mãe antes de ela ter nascido e que a mãe teria emprestado esse livro a uma amiga pouco depois de o ter comprado e lido; ora, a amiga nunca chegou a devolver-lho, certamente por distracção, como tantas vezes acontece, e a coisa ficou esquecida. Mas eis que, tantos anos passados (tanto eu como essa jornalista temos mais de sessenta, por isso façam as contas), vem agora o livro parar às mãos desta minha amiga e do irmão, que são os seus legítimos herdeiros. Não se sabe se o gentleman que teve esse gesto bonito é filho ou sobrinho da pessoa que ficou indevidamente com o livro, porque a mãe da jornalista podia tê-lo emprestado a qualquer uma das irmãs; mas o senhor achou-o no meio de outras coisas enquanto estava a recuperar a casa dos avós e, ao abri-lo, reparou que estava assinado, pelo que resolveu contactar os actuais donos e devolvê-lo. Temos a noção de que, se não gostasse de livros, provavemente não teria valorizado a propriedade daquela brochura envelhecida, deitando-a fora ou não se dando ao trabalho. Porém, alguém que gosta mesmo de livros tem normalmente estas atenções.