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Nov23

Maria do Rosário Pedreira

Frederico Lourenço traduziu recentemente a poesia de Horácio para a Quetzal e temos a certeza de que não vai ficar por aqui em matéria de tradução e apresentação de clássicos. Já Carlos Ascenso André se ocupou de A Arte de Amar, de Ovídio, que li, salvo erro, na edição da Cotovia há muito tempo, observando já (e não eram ainda os tempos do Me Too, nem pensar) como algumas das afirmações do mestre sobre as mulheres poderiam irritar e até ofender as feministas mais radicais e as leitoras que não conseguem situar certas obras na época e no contexto em que foram escritas. Disto mesmo falava Mário Cláudio um dia destes no Facebook (citando um excerto de A Arte de Amar especialmente «colorido»), e a filha de um amigo nosso que dá aulas de literatura clássica em Inglaterra contou-nos que, nas primeiras aulas do semestre, é obrigada a descrever exaustivamente aos seus alunos de que tratam certas obras e autores (Ovídio e A Arte de Amar, por exemplo) para que estejam avisados do que aí vem; mas (pior!) esses alunos podem recusar-se, só pela temática anunciada, a estudar certos livros por motivos ideológicos, concluindo o curso universitário sem chegar a ter posto os olhos em autores essenciais. E Ovídio, diz ela, é geralmente o mais banido... É a arte de não amar a literatura...